Poesias de Espanha

Mesmo não sendo no Rio, vale a pena divulgar o lançamento da coleção “Poesias de Espanha – da origens à Guerra Civil”.

Abaixo, o convite e a resenha de divulgação:

 

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COLEÇÃO POESIAS DE ESPANHA

Os 70 anos do encerramento da Guerra Civil Espanhola, um dos episódios mais cruéis e de maior impacto do séc. XX, serão lembrados no dia 1º de abril de 2009. Para marcar a data, a editora Hedra lança, no dia 3 de abril na Casa das Rosas, a coleção Poesias de Espanha: das origens à Guerra Civil, uma antologia poética em quatro volumes que reúne as literaturas galega, espanhola, catalã e basca, todas elas profundamente marcadas pela Guerra Civil Espanhola.

Os volumes que serão lançados, intitulados Poesia galega, Poesia espanhola, Poesia catalã e Poesia basca, todos com o subtítulo “das origens à Guerra Civil”, reúnem uma seleção de poemas e autores representativos dos principais períodos históricos de cada literatura, desde suas origens como manifestação literária, a partir do séc. XII, até a Guerra Civil Espanhola, encerrada em 1º de abril de 1939.

O corte temporal, além de abarcar as origens da poesia de cada uma das línguas, destaca a importância da Guerra Civil Espanhola para as quatro literaturas, simultaneamente como elemento de ruptura e fator de convergência, na medida em que representa o desaparecimento de toda uma geração de escritores perdida na guerra ou no exílio.

Com organização e tradução de Fábio Aristimunho Vargas, a antologia conta ainda com um amplo aparato crítico: uma apresentação geral à coleção seguida dos prefácios específicos para cada língua, notas biobibliográficas dos autores e poemas, um quadro sinótico, fonética sintática e guia comparativo das ortografias portuguesa, galega, castelhana, catalã e basca.

Entre os autores reunidos figuram nomes tão diversos como Martim Codax, Rosalía de Castro, Manuel Antonio (Poesia galega), Gonzalo de Berceo, Garcilaso de la Vega, Federico García Lorca (Poesia espanhola), Ausiàs March, Jacint Verdaguer, Bartomeu Rosselló-Pòrcel (Poesia catalã), Bernat Etxepare, José María Iparraguirre, Lauaxeta (Poesia basca), entre vários outros, além de composições e cantigas de origem popular.

O livro dedicado à poesia catalã foi premiado pelo Institut Ramon Llull, entidade responsável pela projeção no exterior da língua e da cultura catalãs, com sede em Barcelona, com a concessão de apoio à tradução em 2009.

 

Fábio Aristimunho Vargas é integrante do “Coletivo Vacamarela” que organiza a Flap! em São Paulo. 

Literatura na Avenida

Já estamos em pleno carnaval e eu, ainda de ressaca pelos blocos de ontem, venho a este blog fazer um lembrete: neste domingo, primeiro dia de desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro, a literatura vai invadir a Sapucaí.
A Mocidade Independente de Padre Miguel, minha escola de coração, trará para a Avenida o enredo “Clube Literário – Machado de Assis e Guimarães Rosa… Estrelas em poesia”.
O desfile ocorrerá entre 0h15m e 1h. Vale a pena fazer uma pausa nas badalações e acompanhar a homenagem. Onde quer que estejamos, sempre há um bar com a TV ligada transmitindo o desfile.
Dado o recado, bom carnaval a todos.

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 Clube Literário – Machado de Assis e Guimarães Rosa… Estrelas em poesia!

 

Reluzente estrela de um encontro divinal

risca o céu em poesias

traz a magia pra reger meu carnaval

despertam nas páginas do tempo

romances personagens sentimentos…

Machado de assis que fez da vida sua inspiração

um literato iluminado

As obras, um destino à superação

nos olhos da arte reflete o legado

do gênio imortal odo bruxo amado

que deu ao jornal o tom verdadeiro

apaixonado pelo Rio de Janeiro

 

A canção do meu sarau te faz sonhar

a emoção vai te levar

a estrela adormece na paz do amor

abençoado, um novo sol brilhou

 

O vento traz rosa de Minas

rosas do mundo pra te encantar

palavra que tocam a alma

fascinam e têm poder de curar

pelas veredas do sertão

a fé, o povo em oração

Pedindo à santa em romaria

pra chover em nosso chão

mistérios da vida desse escritor

revelam histórias de um sonhador

Brasil de tantas artes,

nas letras, sedução

herança em cada coração

 

mocidade, a sua estrela sempre vai brilhar

um show de poesia em nossa academia

saudade em verso e prosa vai ficar

 

 

Para saber mais sobre o enredo da esola, clique aqui.

Dado Amaral, lança livro em Portugal

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Dado Amaral participou da edição 2008 da FLAP! – Interferências, na mesa Vanguarda (mediada por mim), com a crítica literária Beatriz Resende, e o poeta Paulo Henriques Britto.

Leonardo Martinelli

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Homenagem aos dois meses de falecimento do poeta Leonardo Martinelli, completados no último sábado, dia 24.

Seguem dois poemas de seu livro Dedo no ventilador :

Museu Cotidiano

Esquecer para lembrar: centelha inglória
da renúncia, palavras turvas, membros inertes
– muletas de causa/efeito para maior
segurança dos instintos – o corpo, fábrica
de flertes, quer abrigo, pares e poros,
um pouco de atrito – este nó que de tão
cego não desata nem sacia (tarde de maio
ou joy forever?) – exilados da carne a
envenenar-se de espírito, fardos mutuamente
inúteis – agora deixa sangrar: uma
fina, milenar garoa, salpicando carbono
em flores fósseis (voltem sempre)

 
Pequena paisagem

Face em foco
sobre o rio – a mão
afaga o seixo
antes de atirá-lo
ao reflexo móvel
do último gesto

(Martinelli, Leonardo. Dedo no ventilador. Rio de Janeiro, Editora Bem te vi, 2005)

 

Apresentamos também um belo poema de Carlos Lima em sua homenagem:

Para um Cronópio em Transe

para Leonardo Martinelli

“Sem compreender que,
pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida,
o homem enganou o homem.”
Paulo Mendes Campos

 

Meu magnífico Cronópio
a vida transita pela máscara da tua face
machucada como um trapezista do caos
na essência todo esse mundo é uma indecência
um imenso emunctório de emoções traídas
só a fauna dos famas consegue cumprir os prazos
chegar às chagas desse solo sujo sem cicatrizes
Mesmo sem Horácio Oliveira, Maga, as teorias do túnel
o Perseguidor continua a sua irretocável viagem
enquanto nas úlceras do fim do mundo
uma traça morelliana como uma bela dama sem perdão
baila em volta do teu caixão de anjo rebelde
numa carícia morta sobre teu corpo não vencido
as unhas dessa paisagem infiel despejam sobre você
todo o fel da sua melancolia suburbana
mas nem a noite bêbada com sua atroz hipocrisia de medusa
que tateia os naufrágios nas pétalas do sonho
pode assassinar a Tarde de Maio do teu coração – já fábula de luz.

Carlos Lima
24/11/2008

Um dos rios que deságuam na contemporaneidade da poesia brasileira: José Paulo Paes

 

 

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“Muitos outros escritores e intelectuais brasileiros (ou estrangeiros que aqui viveram) conseguiram sobreviver à margem das instituições oficiais de ensino e pesquisa. Talvez tenham sido maioria até o início dos anos 60, justamente pela ausência de instituições que os abrigassem. A cultura brasileira não seria a mesma sem a contribuição de figuras como Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Gilberto Freyre, Caio Prado, Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld, Barbara Heliodora, Augusto de Campos, Fausto Cunha, os intelectuais (tantos!) ligados ao Itamaraty… a lista não teria fim. O fortalecimento das universidades e de outros centros de pesquisa teve, sem dúvida, um papel imprescindível para a cultura nacional. A influência decrescente desses grandes “amadores” também trouxe à nossa produção cultural – de par com os discutíveis ganhos do rigor universitário – algum desamor que, receio, deixou pelo caminho aspectos que fazem falta.”
Rodrigo Naves

 
Não resisti ao impulso de destacar esse trecho da excelente apresentação do recém lançado Poesia Completa, de José Paulo Paes (Cia. das Letras, 2008). Além de acreditar que a discussão levantada por tal excerto seja pertinente e apropriada, suspeito que essa avalanche chamada Internet já se configure como um fenômeno que atua na reversão do quadro apresentado.

É nesse sentido que sugiro que uma das características mais marcantes da obra de José Paulo Paes – a revalorização da preocupação com entendimento do leitor – pode ser entendida como uma antecipação de um dos traços que se anunciam na produção contemporânea. Ou, reconhecendo a parcialidade dessa observação, aponta para algo que me parece valioso ao se analisar e produzir literatura nos dias presentes. E associo isso a Internet pela evidente porta que ela tem aberto ao surgimento de novas vozes que antes provavelmente evanesceriam perante o embate com o mercado editorial e a fortaleza acadêmica.

Recomendo o citado livro do JPP também pela prazerosa possibilidade de avaliar todo o desenvolvimento poético de um autor – desde seu primeiro livro até o derradeiro poema escrito na véspera de seu falecimento, em outubro de 98 – amplamente dedicado à literatura e sempre responsável com o fazer poético. No livro ficam claras as diferentes influências que ao longo de uma vida foram metamorfoseando uma escrita que nunca se quis estática; perpassando estéticas desde o humor ao concretismo; e culminando em um inevitável e belo amadurecimento de um grande poeta.
 

    Abaixo, dois poemas destacados do livro que me pegaram de jeito:
 
BORBOLETA

 

Mal saíra do casulo
para mostrar ao sol
o esplendor de suas asas
um pé distraído a pisou.
 
(a visão da beleza
dura um só instante
inesquecível).
 
 ***
 
À GARRAFA
  
Contigo adquiro a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.
 
Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.
 
Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces, suicida,
 
Numa explosão
de diamantes.
 
 
(Poesia Completa / José Paulo Paes; apresentação de Rodrigo Naves. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008.)
 

Inédito de Afonso Henriques

Outro dia, o Afonso me deu para ler “uma brincadeira” que fez a partir do Esperando Godot, do Beckett. Depois de me divertir um bocado, perguntei a ele se poderia compartilhá-la com os leitores deste blog – pois tinha a impressão de que esse texto não fora difundido por aí. Não fora mesmo;trata-se de um inédito seu, parte do livro “Máquinas do mito”, previsto para ser lançado ainda neste ano. O furo para vocês:

GODOT CHEGOU

                            d’après Samuel Beckett

Cena: palco intensamente branco (chão, fundo, paredes laterais, teto), como se visto do centro de uma tempestade de neve. Música espacial interrompida várias vezes por silêncio absoluto. Após algum tempo, surge com lentidão de um dos cantos do cenário personagem todo coberto por belíssimos, resplandecentes panos multicoloridos, onde o vermelho e o ouro preponderam. Está dobrado sobre si mesmo, quase de costas para o público. Vai se arrastar muito devagar, primeiro em linha reta numa diagonal do palco, para depois se movimentar a esmo, como se procurasse alguém, mãos às vezes estendidas à frente, tateando o espaço, o rosto sempre encoberto. A voz em off será, indiferentemente, ora masculina, ora feminina. Às vezes adquirirá um timbre infantil, ou ligeiro e distorcido como em rotação acelerada.

Voz (off): Caralho, é pior do que poderia imaginar. Ninguém. O tempo é puro deserto. É difícil enfiar a bosta da frase literária no palco. A salvação é este silêncio. Onde o homem não habita nasce a paz. Nenhuma resposta. Irrespirável. (repete as frases em ordens trocadas e com entonações diferentes).

(Passam alguns minutos em completo silêncio. O personagem às vezes se move de modo quase imperceptível. O vento principia a soprar e o seu uivo vai se tornando, aos poucos, insuportável. O personagem se enrola nas roupas reluzentes e se enrodilha no chão, imobilizando-se como se fosse uma pedra. O ruído do vento cai. De um dos cantos do palco ergue-se com extrema lentidão Vladimico, enrolado em roupas por inteiro brancas – e por isso se encontrava, de maneira mimética, invisível para o espectador. O mesmo começa a suceder com Estragado, colocado em outro ponto do palco. Os dois, quando já de pé, arrancam as roupas brancas em um violento rompante: ficam vestidos apenas com uma minúscula tanga e têm os braços, os joelhos e os pés pintados de vermelho.)

Vladimico – É hoje o dia da alegria (ao fundo toca trecho do samba-enredo com este verso e depois cai).

Estragado – Você escutou isso, Vladimico?

Vladimico – O vento?

Estragado – Uma espécie de música.

Vladimico – É só o vento, Estragado. Larga de ser imbecil.

Estragado – Eu ainda estava sonhando. Era isso.

Vladimico (examina os dois braços, os pés e os joelhos pintados de vermelho; tom de sofrimento) – Nos machucaram demais.

Estragado (que também passa a se examinar) – Eu ainda estou sonhando. Coisas do carnaval. É isso.
Vladimico (andando pelo palco) – Onde está a merda da árvore que serviria para o nosso enforcamento?

Estragado – Árvore?

Vladimico – Para o enforcamento, idiota. Depois falaram em nos amarrar na cruz até a morte. Estávamos fodidos de todo jeito.

Estragado – Parece que eu havia escutado você dizer que o tempo era deserto (olha em torno). Tudo deserto, a não ser esta pedra colorida.

(Vladimico aproxima-se desconfiado do personagem enrodilhado).

Vladimico – Isto não é uma pedra colorida. (Apalpa o personagem).

Estragado – Uma pedra e mais nada. Não há nada, mas uma pedra. Uma pedra que é nada, e nada que será…

Vladimico (berra) – Pára com esta merda, porra. Que ladainha de bosta!

Estragado – Uma pedra, pronto.

Vladimico (chutando o personagem que rola pelo chão sem se descobrir e depois se imobiliza) – Vê? Pedra nenhuma. Apenas mais um personagem neste teatro esquisito.

Estragado (olhando em torno) – Teatro?

Vladimico – Modo de dizer. Linguagem figurada. Esquece.

Estragado (se aproximando do personagem) – Uma pedra que respira?

(Vladimico vai lutar para desembrulhar o personagem. Luta com ele, rola pelo chão, enquanto Estragado saltita em torno desesperado. Depois de muito esforço Vladimico dá a entender para a platéia que conseguiu descobrir o rosto do personagem, que está de costas e invisível para o público.)

Vladimico (contabilizando para a platéia) – Dois olhos, um nariz, um pedaço de boca, alguma barba escura. (Volta-se para Estragado). Você chama isso de pedra?

Estragado (extasiado) – Uma pedra que respira!

Vladimico (examina o rosto invisível) – Um personagem, como eu e você. Todos respirando, porra.

Estragado (que está de lado e não pode ver o rosto do personagem, que afinal está praticamente enrodilhado com Vladimico) – Esta pedra se parece com Godot.

Vladimico (erguendo-se lentamente, como se estivesse acordando de um sonho) – Bem que este rosto não me era desconhecido. Ai de nós, que tanto esperamos Godot.

Estragado (abaixando-se e examinando o que seria o rosto do personagem embrulhado nos panos coloridos e reluzentes) – Você disse que este personagem, que esta pedra tinha barba? (Dirige-se para o público) Mas é uma criança, barba nenhuma, parece uma mocinha, uma adolescente.

Vladimico (em êxtase) – Godot chegou. Fez morada entre nós. E no mais fundo de cada um de nós. Ele chegou, aleluia, hare krishna, iluminados salamaleques.

Estragado (ríspido) – Chegou e arribou. Não é pedra, nem Godot. Um bebê cagado e mijado enrolado nesses panos tão bonitos.

Vladimico (em êxtase) – É que o mito não tem idade. Transparência. Esperamos uma eternidade. Mudamos de pele infinitas vezes. Fomos reis e mendigos. Santos e homicidas. Só ele poderia dar sentido à eternidade, a essa enxurrada de máscaras que no fundo é o vazio, beijar a carne do infinito. Godot chegou. Podemos ficar aqui o tempo inteiro. Tudo agora tem sentido.

Estragado – Mas se aqui é o fim do mundo, o que é que você quer dizer com ‘tudo agora tem sentido’?

Vladimico – Sentir o fim da estrada é sempre isto: tudo por se fazer ou nada feito mesmo.

Estragado – Mas eu estou cansado de já ter feito mil coisas desde ontem.

Vladimico – Para nada.

Estragado – Para mim mesmo.

Vladimico – O tempo vai semeando esqueletos de lembranças até tudo acabar. E quando acabar, puff, já era!

Estragado (sonhador) – Mas se Godot chegou, hoje tudo recomeçou.

Vladimico (ríspido) – Tudo? Hoje? Recomeçou? Acho que você ‘tá sempre de porre. (olhando Estragado de alto a baixo) Sabe, você nem existe.

Estragado – Nem é muito provável.

Vladimico – O quê?

Estragado – Que tudo tenha sido um sonho.

Vladimico – Sonho de quem? Você é um inferno, troca tudo de lugar.

Estragado – Não importa. As coisas vão ser sempre iguais.

Vladimico (enfadado) – Essa conversa não tem pé nem cabeça.

Estragado – Nem sapato e nem chapéu. Manda outra.

Vladimico (ainda com enfado) – Não tem chulé nem café.

Estragado (com vivacidade) – Nem rapé e nem muié. Manda outra.

Vladimico (berra) – Pára, pára! (depois que o silêncio se instala) E ainda tem gente que pensa que a luz do universo mora entre nós. (pausa) Se o que permanece mesmo é o silêncio. Depois, como é que uma pessoa perdida nesses desertos cospe uma porção de palavras no vento e até hoje tantos o idolatram? Quem sabe Godot pode agora nos explicar tudo.

(Enquanto Vladimico vai falando, e também durante as próximas falas, surge um personagem embuçado, coberto com manto negro e com uma corda na mão. Dá a entender, após muitos esforços, que amarrou uma das extremidades da corda no pescoço invisível do personagem de roupas reluzentes. Começa então a retirar-se de cena arrastando pelo pescoço o personagem de roupas coloridas – que às vezes resiste – como se fosse um cachorro, até ambos desaparecerem.)

Estragado – Do que você está falando, Vladimico?

Vladimico – Escute bem, Estragado. Um de nós pode ter sido salvo. Acontece que um dos quatro evangelistas, dois deles não mencionaram a existência de nenhum ladrão amarrado em nenhuma cruz. Talvez imaginassem que fomos enforcados, ou simplesmente nos ignoraram. Dos dois evangelistas que sobraram, um disse que existiram dois ladrões que xingavam o tempo todo o Salvador, enquanto o último evangelista falou que eram dois ladrões e que um deles tinha pedido perdão e fora salvo. A confusão é muito grande. Em termos estatísticos, 50% dos evangelistas não falou de ladrões; para 25% são dois ladrões a xingarem o Salvador; para o restante 25%, também dois ladrões, sendo que um xingava e o outro pedia perdão. Se nem eles se entendem, como é que vamos saber se algum de nós foi salvo ou não? (neste ponto o personagem embuçado e o de roupas reluzentes desaparecem por completo).

Estragado – Salvo do quê? Da salvação dos ladrões?

Vladimico – Da puta-que-o-pariu! Vai ser jumento assim na casa do cacete!

Estragado (olha em torno, pega a roupa branca no chão e começa a se vestir cantarolando) – Ninguém nunca veio, ninguém nunca virá, háháháhá.

Vladimico – Estava agora mesmo aí no chão, com todas as estrelas, todos os céus nas mãos. E ninguém o reconheceu. (Procura desesperadamente alguma coisa no chão. Depois, desanimado, pega a sua roupa branca e começa a se vestir também).

Estragado (já vestido, aos poucos vai retornando à posição original, integrando-se mimeticamente ao branco total do palco) – Ele chegou em forma de pedra, em forma de pedra ele chegou.

Vladimico (também retornando à posição original) – Se ao menos a gente se lembrasse da ventania que soprou depois de todos aqueles gritos entre as cruzes no alto da colina de pedra…Uma tempestade para lavar todo o pesadelo cravado naquela pedreira abandonada…Afinal, quantas cruzes eram? Estragado, eram mesmo cruzes? Ou só teatro no vento?

Estragado – É verdade, nós devíamos estar nus, amarrados dentro do vento.

Vladimico – E então? Vamos esperar?

Estragado (perplexo) – Alguma vez já começamos a esperar?

Vladimico (desanimado) Você nunca entendeu porra nenhuma do que eu disse. Nunca pegou a palavra, rasgou-a em mil pedaços, mordeu a polpa escura, esse pedaço de sombra, esse coágulo de nada. Merda. Alguma vez você viu refletido no fundo de alguma palavra todo esse sangue que escorre sem cessar no mundo?

Estragado – Fique tranqüilo. Repare como as coisas vão continuar a respirar. Respire. De qualquer jeito tudo vai continuar a respirar. Respire. Respire.

Vladimico – Vá até a sala, imbecil, tire a porra do chapéu e cumprimente todo mundo. Afinal todos estavam esperando alguma coisa também.

Estragado (imóvel) – Pois é. E nós, hein, que nem mesmo sabemos o que é esperar! (pausa) De tudo o que a gente diz escorre sempre depois uma lua murcha. (voz forte) Uma lua murcha. (cantarolando em grasnidos, enquanto Vladimico rola no chão a berrar repetidamente “pare com esta merda”) Murchaaá, marmuchurchamurchalalá, murchuaaá, marurchulalalá…

Luzes se apagam. Cortina.

Um poema de Eucanaã Ferraz

DIR-SE-IA QUE O PULSO…
Dir-se-ia que o pulso
pousa quase delicado.

O pincel esmerou-se,
com efeito.

Nada macula a pele branca,
pura, do príncipe.

Nenhum sinal de
sangue ou espanto

em sua espada,
no brilho dos olhos.

E belo, e jovem.
O monstro.

Eucanaã Ferraz participou da edição de 2008 da FLAP! na mesa “Empório de Palavras”, ao lado de Claufe Rodrigues, João Emanuel Magalhães Pinto, Victor Paes e Tanussi Cardoso.