Coisa que o primeiro cachorro na rua pode dizer

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A ideia não era voltar ao Brasil agora, mas já não sei bem se devo alguma coisa à antiga ideia (coerência é virtude, é o quê?), de toda forma a virtualidade não conhece fronteiras. Aonde quero chegar. Aonde quero chegar: acabei chegando aqui: Coisa que o primeiro cachorro na rua pode dizer; já leram? Segue amostra grátis:

entre-fôlegos de um basqueteiro solitário
quinze para as duas da tarde
na trajetória indefinida da bola, um vôo cego de idéias inacabadas quicando no chão e nos muros
ah!, se não tivesse quebrado tantas promessas de intimidade, ou não faltasse aos encontros e aos riscos
talvez fosse milionário e igualmente descontente, talvez estivesse feliz criando cogumelos em Nova Lima
não tenho radar para me guiar no escuro, e na claridade desta tarde orientes e mitos surgem ofuscados
sobram contornos, arestas, rugosidades
e entre uma linha e outra, inúmeras e imprudentes lagartas esmagadas
e entre o chão e o aro, o peso e a circunferência onde me arremesso
talvez eu deva jogar na mega-sena acumulada
e se ganhar aquela bolada (ah!, se ganhar aquela bolada), ir rifar o dinheiro com as putas parisienses, subornar um senador da república ou patrocinar cocaína para os amigos
mas o que pode restar de alguém que um dia ganhou tantos milhões de dinheiros
poderá caminhar à tarde, pegar o metrô em Botafogo e ir ao centro da cidade procurar um livro no sebo?
poderá dormir no ônibus, com o rosto encostado no vidro, e não saltar no ponto de descida?
perder-se, sentir fome, carregar silenciosamente uma hérnia de disco, ter um pâncreas ectópico, uma esofagite de refluxo
não sei por quanto tempo os joelhos vão suportar todos estes impactos
há tantos arremessos, encontros, chutes, medidas
e coisas sem sentido que me compõem, habitam os passos e os intestinos
há ainda muito a fazer
escutar cantores populares que vêem deuses todo santo dia, ou comem pentes, ou decifram o mistério das pirâmides, a configuração das estrelas
não para tentar responder ao tablóide inglês qual o sentido da vida
pois essa é mais uma coisa que você pode perguntar ao primeiro cachorro na rua que ele vai lhe dizer

O poema é do Caio Meira, você pode ler o livro online (só clicar no título lá em cima) ou o comprar no site da Azougue.

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Estréia de Anderson Fonseca!

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Afrodite in verso

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CONFISSÃO

meus sussurros
são derramados
em papel de carta.

quando a calma da tinta acabar
esqueça que te amo.

 
Esse poema exemplifica bem o lírico “Afrodite in verso” da carioca Paula Cajaty, lançado ano passado pela 7Letras. A autora, que mantém um interessantíssimo e bem atualizado site (paulacajaty.com) de poesia e outras variedades do mundo artístico, teve a orelha dessa sua estréia escrita pelo poeta Fabrício Carpinejar, onde a essência do livro foi muito bem captada:

“Na obra, há um efeito ‘Lolita’, uma mistura nervosa de adolescência e erotismo, da ansiedade do meu ‘querido diário’ e o sarcasmo da partilha de bens.”

Um poema de Alberto Pucheu

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ECOMETRIA DO SILÊNCIO

        Não fui ao túmulo do poeta morto, cravar a testa
no cimento duro. Não fui à casa do poeta morto, vestir
seus óculos, sentar à mesa de trabalho ou de jantar, ler
os livros envelhecidos na estante ou manuscritos em
caixas, arcas e malas. Não caminhei pela rua do poeta
morto, recitando seus versos de cor, trazendo
escombros junto a mim. O que pôde tocar, não toquei.
Nunca quis sua caneta em meu bolso, transpirando seu
suor em minhas páginas escassas. Não ansiei por
cartas de elogio, indicação a editores, artigo em jornal.
Deixei as poucas lembranças, como as fotografias em
comum, para o esquecimento. Quase não me lembro
do poeta morto. O que um dia esperei dele, descubro
que, de há muito, trago no corpo: a força de um
silêncio recolhido.
        Estou só. Como a madeira silenciosa deste
armário, como o fruto mais maduro que não tomba,
mas, à beira de tombar, está no instante. Estou só.
Com as letras da distância, com os nervos da lacuna.
A calada enfiada pelos pés, os pés estacionados com
o peso da calada. Cada um se deita na cama que
merece. O destino não muda, e o futuro me atormenta.
Estou só. Ninguém me peça o que eu não posso dar:
hospedagem, dinheiro, estas pequenas coisas que até
tenho. Que se lancem com uma pedra ao mar,
amarrada na cintura, ou por debaixo dos pneus de um
carro, ou em frente de bala calibrada. Mas ninguém
me peça o que eu não posso dar. Dou ao mundo
somente o que nem tenho, um naco de frases
carcomidas. Estou só.
        Aqui, neste quarto, sou o preço que o que
larguei para trás e o que nunca logrei me querem
cobrar. Passo a vida imerecidamente. Viver é para
aqueles que, apesar de tudo, permanecem tranqüilos.
Nunca tive filhos. Não pela miséria humana, pois, este
legado, como qualquer pessoa do tempo em que vivo,
não me importa transmitir. Mas por querer evitar que
o inoportuno atravessasse minhas horas, propagando
demandas, adiando a disponibilidade necessária para o
amanhã que jamais virá. Me basta o incômodo
involuntário e excessivo. Não peço desculpas a
ninguém, nem aos delicados, tenho mais o que fazer.
Sei que estou só e quero cumprir a solidão nos
afazeres cotidianos e na inquietude merecida por ter
vindo ao mundo. As perguntas que, por tanto tempo,
se fizeram em mim, extinguiram-se. Estou sentado
com os sentidos no corpo do pensamento, suspenso,
há uns três pés acima do solo que piso. Conquisto, a
cada dia, uma espécie de permanência, de confiança,
na perplexidade que o mundo oferece. E há dor.
         Não tenho motivos para acreditar em mim, em
qualquer qualidade que possa ter. Os acertos e erros
foram todos pequenos, como os de qualquer um na
vida. Até hoje, não me orgulho de nenhuma
relevância. Desfruto, mesmo, de certo prazer por não
ter contribuído com o que quer que fosse. E acaricio,
com a palma de minha vaidade, o descrédito que me
dou, flagrando no sucesso alheio a inautenticidade a
que muitos se permitem. Quantas cabeças fraudadas
se sujeitando a aplausos… quanto regozijo com a falsa
impressão de inteligência que querem causar…
quanto investimento para forjar a mesquinharia do prestígio.
Percebo, pelo caminho que passo, latidos e miados de
animais que teriam outros hábitos, bípedes
emplumados piando na tentativa de ser gente, clones
do fracasso inveterado de si mesmos. Todos,
náufragos de mãos dadas, clamando pelo sinal
salvador de uma bóia flutuante… ainda. Sigo melhor
sem companhia, cozinhando o brando e o rude nos
baços da caligem que me esconde, guiado pelo futuro
que não se sabe.
         Desprezo a frieza da perfeição, pela ausência do
risco, superado, pela necessidade do acerto e da
completude blindada. Abandonaria esta fala em
qualquer lugar, por desleixo ou cansaço, pouco
importa. O fato de ter sido acionada sem o menor
estampido, sem o menor alarde, sem alguém que a
escute, sem alguém que a aprove, sem alguém que a
reprove, sem alguém que mova o mínimo músculo,
surrado, prova ser minha, esta fala. Estou só. E só
encontro o movimento do que me cala: o amarelo do
peixe no aquário do shopping, a musculatura operária,
o cérebro no impacto do soco, a punção do trocarte e o
momento seguinte ao acidente consumado. Encontro…
Encontro a noite de óculos perdidos no fundo de um
lago. Encontro só o que me cala.
         Deixei os livros na calçada – que o caminhão de
lixo ou um vizinho desavisado, desconhecido, os
pegue; bons ou ruins, ótimos ou péssimos, nunca
foram nada para mim. Guardei três ou quatro por não
possuírem esteios em que pudesse me agarrar. Se na
vida não os tenho, não os terei nos livros.
Pelo menos, não sou um tolo completo. Se sou cego, é apenas de
uma vista. Se surdo, aprendi a escutar com o pouco do
olfato que sobrou. Se sou mudo, a fraqueza de
algumas palavras, à minha revelia, murmura, ou
assopra a tentativa de seu hálito afônico como no
instante mortal de um hospitalizado. Penso quando me
espanto com o transbordamento da ausência. Falo para
ninguém. Falo por falar. Já não me afaga ter algo a
dizer… Falo pela necessidade implausível de silenciar
as palavras com as próprias palavras. Tomo posição:
meço, com o eco do silêncio pronunciado, a distância
que separa de mim o arredor que blasona. Quanta
turbulência na milhagem intransponível entre ouvidos
alheios e minha boca, entre a boca alheia e meus
ouvidos, quanta incompatibilidade.
         Nunca me reconheci em nenhuma frase, estive
sempre perdido, e, hoje, só tenho essa perdição sem
qualquer esperança. Vivo a instabilidade das
propensões, submetido aos ditames do provisório.
Estar fora de tudo o que dizem, não ser alvo meritório
de ninguém, é minha maneira de estar dentro. Não
tenho escolha. Prefiro assim. Estou só.

(Ecometria do silêncio . Rio de Janeiro: Ed. Sette Letras, 1999, págs. 5-8)

Alberto Pucheu nasceu no Rio de Janeiro, em 1966. É escritor e professor de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participou da edição da FL@P!RJ 2007, na mesa A Literatura na Sala de Aula, junto a Érico Braga, Flávio Corrêa de Melo e Marcus Alexandre Motta.

no entanto d’água

Semana passada, encontrei na bagunça de meu armário o livro no entanto d’água, de Leonardo Gandolfi, publicado em 2006 pela editora 7letras. Resolvi reler a obra e acabei tendo mais prazer do que eu poderia imaginar. Não me recordava das sutilezas e possibilidades que a poesia de Gandolfi, pouco a pouco, vai nos propondo.

O livro é composto por 3 longos poemas (“Sete”, “Rosto” e “- Quem são estes?”). Segue um trecho de “Sete”:

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Sete

A gravidade posto o peso esquerdo

das palavras

espera por dentro

da altura a areia

Semelhante desenho do oxigênio

o formato

e direção da pausa –

prosseguir

embora em subentendida calma

verso a verso teus insetos

 

*

 

Juntam-se a esses insetos diversos recursos

uns mais dispersos outros não

Desatadas as coissas descalças

e o que por distenção não só retorna

como também e quase ao mesmo tempo

avança

o senão põe aqui o sal e o sim

da última mudança de andamento

 

De cima contra o círculo de giz

inversa dor do céu o chão caber

Jovens poetas em pauta no Click(in)versos

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Quem não conhece, deveria. Ramon Mello, companheiro nosso no coletivo | riosemdiscurso e autor do livro Tumorgrafias (Editora Cartaz, 2006), possui um excelente blog de literatura, o Click(in)versos. Ao contrário do sempre revelador conteúdo, o formato dos posts pouco muda, são entrevistas com jovens escritores atuantes na literatura contemporânea. E o melhor é que, nestes tempos de “tudo pela internet”, Ramon prefere encontrar-se pessoalmente com os escritores.  O que se lê blog é, portanto, espontâneo e descontraído, tudo o que se precisa para uma boa prosa.
 
Nas duas entrevistas mais recentes, a poesia predominou. Ele conversou com Lucas Viriato, editor do jornal Plástico Bolha, cujo último livro lançado em 2008 foi objeto do post de 5 fevereiro aqui do Blog da FL@P!RJ, e com Alice Sant’Anna, ganhadora da eleição dos melhores do ano do Jornal do Brasil com seu livro Dobradura (7Letras, 2008). Ambos (os três, Ramon foi o mediador) participaram da edição de 2008 da FL@P!RJ na mesa “Palavra nos meios”, ao lado dos também poetas Olga Savary e Omar Salomão – que igualmente já foi entrevistado no Click(in)versos.

Confira aqui: http://wwwb.click21.mypage.com.br/MyBlog/visualiza_blog.asp?site=clickinversos.myblog.com.br

E pra completar, Ramon faz aniversário hoje: parabéns Ramon!

Dado Amaral, lança livro em Portugal

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Dado Amaral participou da edição 2008 da FLAP! – Interferências, na mesa Vanguarda (mediada por mim), com a crítica literária Beatriz Resende, e o poeta Paulo Henriques Britto.