Evento quarta-feira!

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Jovens poetas em pauta no Click(in)versos

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Quem não conhece, deveria. Ramon Mello, companheiro nosso no coletivo | riosemdiscurso e autor do livro Tumorgrafias (Editora Cartaz, 2006), possui um excelente blog de literatura, o Click(in)versos. Ao contrário do sempre revelador conteúdo, o formato dos posts pouco muda, são entrevistas com jovens escritores atuantes na literatura contemporânea. E o melhor é que, nestes tempos de “tudo pela internet”, Ramon prefere encontrar-se pessoalmente com os escritores.  O que se lê blog é, portanto, espontâneo e descontraído, tudo o que se precisa para uma boa prosa.
 
Nas duas entrevistas mais recentes, a poesia predominou. Ele conversou com Lucas Viriato, editor do jornal Plástico Bolha, cujo último livro lançado em 2008 foi objeto do post de 5 fevereiro aqui do Blog da FL@P!RJ, e com Alice Sant’Anna, ganhadora da eleição dos melhores do ano do Jornal do Brasil com seu livro Dobradura (7Letras, 2008). Ambos (os três, Ramon foi o mediador) participaram da edição de 2008 da FL@P!RJ na mesa “Palavra nos meios”, ao lado dos também poetas Olga Savary e Omar Salomão – que igualmente já foi entrevistado no Click(in)versos.

Confira aqui: http://wwwb.click21.mypage.com.br/MyBlog/visualiza_blog.asp?site=clickinversos.myblog.com.br

E pra completar, Ramon faz aniversário hoje: parabéns Ramon!

Dado Amaral, lança livro em Portugal

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Dado Amaral participou da edição 2008 da FLAP! – Interferências, na mesa Vanguarda (mediada por mim), com a crítica literária Beatriz Resende, e o poeta Paulo Henriques Britto.

Stela do Patrocínio

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Na (finada ou fugitiva) banca de livros a 1 real em frente à estação Carioca – substituída agora por um carro de polícia na calçada –, encontrei o Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Já ouvira falar de Stela do Patrocínio. Ouvira.

Então, diante da muito vantajosa relação custo-benefício, aproveitei a oportunidade de adquirir o exemplar.

A organização e a apresentação são de Viviane Mosé, que, na última, evoca Foucault, Artaud e Nietzsche para dimensionar a importância de trazer à luz os poemas de Stela – que, para quem não sabe, passou quase toda a vida internada num Centro Psiquiátrico.

O Reino é aberto com o seguinte trecho de A História da Loucura:

“A percepção que o homem ocidental tem de seu
tempo e de seu espaço deixa aparecer uma
estrutura de recusa, a partir da qual se denuncia
uma fala como não sendo linguagem, um gesto
como não sendo obra, uma figura como não tendo
direito a um lugar na história.”

Em seguida, na apresentação, Viviane ratifica o valor de resgate da fala da poeta, “ler e ouvir Stela é integrá-la no discurso que um dia a excluiu.” Fala esta que, ao final do livro, adquire forma de entrevista, na seção “Stela por Stela”:

.
.
Mas você gosta dessa vida?
Gosto, gosto de ficar pastando à vontade
Ficar só pastando

E você não tem vontade de fazer outra coisa?
Não, eu não tenho vontade de fazer outra coisa
A não ser ficar pastando
Pastar pastar pastar ficar pastando à vontade
O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas
A lei é dura mas é lei
Dura lex sed lex no cabelo só gumex
.
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Para finalizar, selecionei para vocês três poemas do livro:

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Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria tomar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida

Eu não tive querer
nem vontade pra essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade pra essas coisas

:

Se eu pegar a família toda de cabeça pra baixo
E perna pra cima
Meter tudo dentro da lata do lixo e fazer um aborto
Será que acontece alguma coisa comigo?
Vão me fazer alguma coisa?

Se eu pegar durante a noite novamente a família
toda de cabeça pra baixo
E perna pra cima
Jogar lá de dentro pra fora
Será que ainda vai continuar acontecendo
alguma coisa comigo?

:

Eu já falei em excesso em acesso muito e demais
Declarei expliquei esclareci tudo
Falei tudo que tinha que falar
Não tenho mais assunto mais conversa fiada
Já falei tudo
Não tenho mais voz pra cantar também
Porque eu já cantei tudo que tinha que cantar
Eu cresci engordei tô forte
Tô mais forte que um casal
Que a família que o exército que o mundo que a casa
Sou mais velha do que todos da família

A poeta e filósofa Viviane Mosé abriu a Flap 2008, além de participar da mesa Geração Espontânea. Leia mais poemas de Stela do Patrocínio na Confraria do Vento. O Reino dos bichos e dos animais é o meu nome foi editado pela Azougue, em 2001.

Retorno ao oriente

capa do livro

capa do livro

Recentemente, no post de 15 Janeiro, divulguei neste Blog da FL@P! a versão online do Jornal Plástico Bolha, fazendo menção ao segundo livro de um de seus editores, nosso caro jovem poeta Lucas Viriato. Aproveito o ensejo para indicar aqui o prazeroso livro Retorno ao Oriente (Ed. 7Letras) com um dos tantos poemas que me chamaram atenção pelo tom leve, bem humorado e lírico, que marca o estilo do poeta. 

Essas Letras

No que dependesse
do conceito de bacana indiano
entraria uma música agora
e essas letras todas
começariam a dançar.

No que dependesse
do conceito de sabor indiano
que vai misturando de tudo um pouco
essas letras arderiam tanto
que precisaríamos de óculos escuros.

No que dependesse
do conceito de harmonia indiano
que torna a vida mais bonita
essas letras todas
teriam flores nas serifas.

 

Sobre o autor: Lucas Viriato de Medeiros, carioca de 24 anos, é formado em Letras pela PUC-Rio, com habilitação em produção textual. Desde 2006, edita com amigos o jornal literário Plástico Bolha, que já publicou centenas de autores, entre novos e consagrados. Em 2007, estreou com Memórias Indianas, livro sobre sua primeira viagem para a Índia. Retorno ao Oriente dá continuidade a este projeto poético sobre o leste do mundo. Participou da última edição FLAP!RJ na mesa  ’Palavra nos meios’ ao lado dos poetas Olga Savary, Omar Salomão e Alice Sant’Anna.

(Retrono ao oriente;  Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.)

O grito

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Passeando pelo Papel de Rascunho, blog da poeta Virna Teixeira, me deparei com a pintura de Edvard Munch, O grito. (Essa aí de cima.) Além do grito, fiquei tentada a deslocar para cá o poema dela – até então desconhecido por mim –, que compõe o mesmo post do dia 10 de janeiro. Mas, em vez disso, sugiro que vocês cliquem no link acima e visitem esse blog, que traz sempre alguma exposição literária interessante, principalmente na área da poesia.

Aproveitando o ensejo – isto é, tendo roubado o grito e sido um pouco roubada por ele –, transcrevo dois trechos da Heterotanatografia e quatro poemas contidos no livro “Certeza do agora”, de Juliano Garcia Pessanha. Ainda não conhecia o autor, era um dia de sorte, e encontrei o exemplar numa banca de livros, dessas que agora estão sendo perseguidas pelo “choque de ordem”. (E dessa “ordem” não entendo, pois a minha ordem de domingo desestruturou-se no momento em que me confrontei com os guardas municipais confiscando os livros da banca que visito semanalmente.)

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O homem que abriu uma brecha na cidade ao gritar do viaduto e da janela do edifício estará em condições de começar a falar se ele não esquecer e não suprimir o grito ao voltar para o seu quarto, mas se, ao contrário, permanecendo no elemento do grito, começar a ser apenas e tão-somente a partir do elemento do grito, de tal modo que já não é a cidade e o edifício que assistem ao grito, mas é o grito quem olha o edifício e a cidade. Estou autorizado a falar não em virtude da minha formação cultural ou de anuência consentida pelo prêmio-literário, nem em função de algum embuste chamado competência comunicativa, mas porque falo a partir de uma dor tão antiga que ela já estava presente na única memória deixada pela criança que fui.

(…)

Vale dizer que logo nos primeiros instantes, tendo colocado a cabeça para dentro da maternidade e não tendo podido dependurar-me no sorriso-mãe, pois o sorriso-mãe, enquanto armação sinistra do bem já não guardava nenhuma lembrança de minha essência, fui obrigado a desdizer o mundo e a retroceder até a região das antecâmaras. E é preciso assinalar que logo nesse primeiro recuo corri o imenso risco de tornar-me um grito eterno e de cair para sempre na direção do nunca, a exemplo de uma grande quantidade de pessoas que conheci e com quem convivi, pessoas que se encontram dependuradas apenas num fiapo de palavra ou no fiapo de alguma esquisitice para não desaparecerem e para não sumirem para sempre, pessoas que são sistematicamente destruídas e aniquiladas pelos funcionários do bem, e os funcionários do bem, quer dependurados na velha caridade cristã, quer dependurados no moderno saber biológico-psiquiátrico, afastam constante e permanentemente qualquer possibilidade de relação humana com a dor humana, pois tanto a caritas cristã enquanto negócio do coisa-deus quanto a medicação psiquiátrica enquanto negócio do programa-científico exorcizam incessantemente o rosto do homem, e se afirmo isso, eu o afirmo de boca cheia, pois experimentei em meu próprio corpo a posição de ostracismo a que me conduziu a boca do consolo e a posição de abandono a que me conduziu a mão que medica e sei, na forma de um saber concreto, que a boca do consolo olha apenas para o alto e encontra-se inteiramente mediatizada pelo olho daquele que tudo vê, e o olho daquele que tudo vê gera nos homens apenas atos intencionais e os atos intencionais, precisamente enquanto intencionais, não passam de atos mortos e auto-referentes e, nessa condição, jamais alcançarão o rosto do homem que espera, o mesmo ocorrendo com a mão que medica, pois a mão que medica, ao se refugiar e se proteger no diagnóstico e ao olhar sistematicamente na direção do saber e do diagnóstico, empurra novamente para o limbo o rosto do homem que sofre, tornando esse mesmo homem cada vez mais só e cada vez mais desesperado.

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Poema da Vida Consumada

     Quero morrer sozinho ao lado de um córrego, de um córrego de nome estranho, de um córrego de nome córrego. Quero morrer sozinho e que um abutre leve meus olhos e algum animal as vísceras. Quero morrer tão completamente que a minha vida, mera mímesis de uma ordem fria, alcance o esquecimento último no qual o córrego seja restituído ao córrego.

Conjugação

     Desde pequeno eu temi a sombra amorosa e, quando me arrumaram uma namorada, eu fugi cheio de um sagrado medo. É que eu já sabia que o amor é uma visitação na qual despedida e cumprimento se conjugam para melhor rememorar a imensidão do nosso exílio.

Segredo de um Amor I

     Eu andei com você pela cidade e eu nomeei os lugares e a vida-sonho de cada rosto que cruzamos. E você se assustou com a intensidade dessa extensão vazia, se assustou ao ver que o homem ao teu lado não tinha lugar nem nome, e era na dor que ele colhia a palavra do poema.
(Como amar o habitante do país do exílio?)

Segredo de um Amor II

     Para ganhar o amor de uma mulher eu imitei o homem coberto e o homem pendurado. Estudei todos os sistemas e dominei as artimanhas do satanismo da luz. Empenhei-me na “magia negra da sensualidade” e na feitiçaria do erotismo… Um dia, exausto, eu precisei partir.
     Eu cruzei doze cidades, sempre olhando as casas pelo lado de fora e espantado porque do rosto dos homens havia sumido o encanto.
     Foi só na última cidade que notei a mulher ao meu lado e vi que a mulher na mulher amava o exilado.
     (E foi essa a única revelação que me nutriu.)

Juliano Garcia Pessanha (1962, São Paulo, Brasil) estudou direito e filosofia. É professor e dirige oficinas de escrita em hospitais psiquiátricos de São Paulo. Autor da trilogia — Sabedoria do nunca (1999, com textos que ganharam o Prêmio Nascente, promovido pela Abril/USP), Ignorância do sempre (2000) e Certeza do agora (2002). Nesses livros de difícil classificação, Pessanha mistura ensaio, poesia e ficção.
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Virna Teixeira é poeta e tradutora. Nasceu em Fortaleza em 1971, é graduada em Medicina pela UFC, com residência em Neurologia pela Universidade de São Paulo, mestrado em Medicina do Sono pela Edinburgh University e especialização em Dependência Química pela UNIFESP. Mora em São Paulo há vários anos, onde trabalha como neuropsiquiatra. Publicou dois livros de poesia pela 7 letras, Visita (2000) e Distância (2005) e os livros de tradução “Na estação central” do poeta escocês Edwin Morgan pela coleção “poetas do mundo” (editora UnB, 2006) e antologia de poesia escocesa “Ovelha Negra” (Lumme Editor, 2007). Atualmente cursa doutorado em Letras no departamento de Lingüística da USP. Participou da Flap! 2006.

Ensaios radioativos

confraria-capa1O poeta, editor (da Confraria do Vento) e ensaísta Márcio-andré lançou no final de 2008 seu mais novo livro: Ensaios radioativos. Oscilando entre artigos explicitamente líricos e uma crítica acurada, Márcio fez um livro não menos que belo. A revista eletrônica de literatura Cronópios publicou há pouco tempo uma interessante resenha da obra, escrita pelo também poeta e pensador Anderson Fonseca. Recomendo o link, além do livro, claro.

Márcio-andré participou intensamente da FL@P!RJ 2007, quando fez parte da primeira mesa ao lado dos poetas Bruno Cattoni, Paulo Ferraz, Sylvio Back e Toni Barreto. Além disso, seu grupo de poesia sonora Arranjos para assobio fez a apresentação de abertura para os debates do dia seguinte.