Evento quarta-feira!

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Lançamento coletivo em Sampa

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A literatura em perigo

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O renomado crítico literário Tzvetan Todorov surpreendeu ao lançar em 2007 “A literatura em perigo”, livro em que ataca a visão e a formação essencialmente estruturalista do ensino literário na França. A obra é agora lançada no Brasil pela editora Difel, com tradução de Caio Moreira.

Uma excelente reportagem de Miguel Conde (incluindo uma entrevista exclusiva com o autor) no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo deste sábado (24/01) traz à tona a polêmica levantada pelo autor. A discussão é também muito apropriada ao Brasil. Reproduzo aqui, portanto, um pequeno trecho da matéria, a título de levantar a reflexão, o debate talvez, e sugerir a leitura da obra.

 “Num resumo simplificado, o problema apontado por Todorov é que a pesquisa e o ensino de literatura nas escolas e universidades tratam cada vez mais da forma do texto – a que gênero ele pertence, como se estrutura, qual seu estilo – e cada vez menos do sentido, ou seja, daquilo que o autor diz sobre o mundo em que ele e o leitor vivem. Isso ocorre, Todorov argumenta, em parte devido à hegemonia de inúmeras teorias que puseram questão, nas últimas décadas, a concepção do texto literário como uma representação do mundo real. Por isso, críticos hoje dariam mais atenção aos elementos internos do texto do que à sua relação com a vida ao seu redor. Vista dessa maneira, a literatura se torna uma atividade autorreferente, cujo principal assunto é ela própria. ‘Uma concepção estreita da literatura’, escreve Todorov, ‘que a desliga do mundo no qual ela vive, impôs-se no ensino, na crítica e mesmo em muitos escritores. O leitor, por sua vez, procura nos livros o que possa dar sentido a existência. E é ele quem tem razão’”. Miguel Conde, para o jornal O Globo. 

 (A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov, Tradução de Caio Meira. Editora Difel) (A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov, Tradução de Caio Meira. Editora Dif

Um dos rios que deságuam na contemporaneidade da poesia brasileira: José Paulo Paes

 

 

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“Muitos outros escritores e intelectuais brasileiros (ou estrangeiros que aqui viveram) conseguiram sobreviver à margem das instituições oficiais de ensino e pesquisa. Talvez tenham sido maioria até o início dos anos 60, justamente pela ausência de instituições que os abrigassem. A cultura brasileira não seria a mesma sem a contribuição de figuras como Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Gilberto Freyre, Caio Prado, Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld, Barbara Heliodora, Augusto de Campos, Fausto Cunha, os intelectuais (tantos!) ligados ao Itamaraty… a lista não teria fim. O fortalecimento das universidades e de outros centros de pesquisa teve, sem dúvida, um papel imprescindível para a cultura nacional. A influência decrescente desses grandes “amadores” também trouxe à nossa produção cultural – de par com os discutíveis ganhos do rigor universitário – algum desamor que, receio, deixou pelo caminho aspectos que fazem falta.”
Rodrigo Naves

 
Não resisti ao impulso de destacar esse trecho da excelente apresentação do recém lançado Poesia Completa, de José Paulo Paes (Cia. das Letras, 2008). Além de acreditar que a discussão levantada por tal excerto seja pertinente e apropriada, suspeito que essa avalanche chamada Internet já se configure como um fenômeno que atua na reversão do quadro apresentado.

É nesse sentido que sugiro que uma das características mais marcantes da obra de José Paulo Paes – a revalorização da preocupação com entendimento do leitor – pode ser entendida como uma antecipação de um dos traços que se anunciam na produção contemporânea. Ou, reconhecendo a parcialidade dessa observação, aponta para algo que me parece valioso ao se analisar e produzir literatura nos dias presentes. E associo isso a Internet pela evidente porta que ela tem aberto ao surgimento de novas vozes que antes provavelmente evanesceriam perante o embate com o mercado editorial e a fortaleza acadêmica.

Recomendo o citado livro do JPP também pela prazerosa possibilidade de avaliar todo o desenvolvimento poético de um autor – desde seu primeiro livro até o derradeiro poema escrito na véspera de seu falecimento, em outubro de 98 – amplamente dedicado à literatura e sempre responsável com o fazer poético. No livro ficam claras as diferentes influências que ao longo de uma vida foram metamorfoseando uma escrita que nunca se quis estática; perpassando estéticas desde o humor ao concretismo; e culminando em um inevitável e belo amadurecimento de um grande poeta.
 

    Abaixo, dois poemas destacados do livro que me pegaram de jeito:
 
BORBOLETA

 

Mal saíra do casulo
para mostrar ao sol
o esplendor de suas asas
um pé distraído a pisou.
 
(a visão da beleza
dura um só instante
inesquecível).
 
 ***
 
À GARRAFA
  
Contigo adquiro a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.
 
Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.
 
Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces, suicida,
 
Numa explosão
de diamantes.
 
 
(Poesia Completa / José Paulo Paes; apresentação de Rodrigo Naves. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008.)
 

Unz, com Sérgio Sant’Anna, no Canal Brasil

Sérgio Sant'Anna

Essa semana, de terça para quarta (de 2 para 3/12), durante os cincos minutos do programa Unz, meia noite e meia, no Canal Brasil, é exibia a leitura da Oração a uma jovem defunta nua, de Sergio Sant’anna. O cenário não poderia ser mais apropriado: o Cemitério São João Batista.

Sérgio Sant’Anna participou da edição 2007 da FLAP! Contaminações, na mesa O Além Livro, mediada pelo poeta e compositor Leandro Jardim. Debatendo com Sant’Anna estavam Cecília Gianetti, Ana Paula Maia e Andrea Paola.

Leitura: Oração a uma jovem defunta nua – Sérgio Sant’Anna
Onde: Canal Brasil, programa Unz
Quando: de 2 para 3 de dezembro, 00:30