Estréia de Anderson Fonseca!

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Inédito de Afonso Henriques

Outro dia, o Afonso me deu para ler “uma brincadeira” que fez a partir do Esperando Godot, do Beckett. Depois de me divertir um bocado, perguntei a ele se poderia compartilhá-la com os leitores deste blog – pois tinha a impressão de que esse texto não fora difundido por aí. Não fora mesmo;trata-se de um inédito seu, parte do livro “Máquinas do mito”, previsto para ser lançado ainda neste ano. O furo para vocês:

GODOT CHEGOU

                            d’après Samuel Beckett

Cena: palco intensamente branco (chão, fundo, paredes laterais, teto), como se visto do centro de uma tempestade de neve. Música espacial interrompida várias vezes por silêncio absoluto. Após algum tempo, surge com lentidão de um dos cantos do cenário personagem todo coberto por belíssimos, resplandecentes panos multicoloridos, onde o vermelho e o ouro preponderam. Está dobrado sobre si mesmo, quase de costas para o público. Vai se arrastar muito devagar, primeiro em linha reta numa diagonal do palco, para depois se movimentar a esmo, como se procurasse alguém, mãos às vezes estendidas à frente, tateando o espaço, o rosto sempre encoberto. A voz em off será, indiferentemente, ora masculina, ora feminina. Às vezes adquirirá um timbre infantil, ou ligeiro e distorcido como em rotação acelerada.

Voz (off): Caralho, é pior do que poderia imaginar. Ninguém. O tempo é puro deserto. É difícil enfiar a bosta da frase literária no palco. A salvação é este silêncio. Onde o homem não habita nasce a paz. Nenhuma resposta. Irrespirável. (repete as frases em ordens trocadas e com entonações diferentes).

(Passam alguns minutos em completo silêncio. O personagem às vezes se move de modo quase imperceptível. O vento principia a soprar e o seu uivo vai se tornando, aos poucos, insuportável. O personagem se enrola nas roupas reluzentes e se enrodilha no chão, imobilizando-se como se fosse uma pedra. O ruído do vento cai. De um dos cantos do palco ergue-se com extrema lentidão Vladimico, enrolado em roupas por inteiro brancas – e por isso se encontrava, de maneira mimética, invisível para o espectador. O mesmo começa a suceder com Estragado, colocado em outro ponto do palco. Os dois, quando já de pé, arrancam as roupas brancas em um violento rompante: ficam vestidos apenas com uma minúscula tanga e têm os braços, os joelhos e os pés pintados de vermelho.)

Vladimico – É hoje o dia da alegria (ao fundo toca trecho do samba-enredo com este verso e depois cai).

Estragado – Você escutou isso, Vladimico?

Vladimico – O vento?

Estragado – Uma espécie de música.

Vladimico – É só o vento, Estragado. Larga de ser imbecil.

Estragado – Eu ainda estava sonhando. Era isso.

Vladimico (examina os dois braços, os pés e os joelhos pintados de vermelho; tom de sofrimento) – Nos machucaram demais.

Estragado (que também passa a se examinar) – Eu ainda estou sonhando. Coisas do carnaval. É isso.
Vladimico (andando pelo palco) – Onde está a merda da árvore que serviria para o nosso enforcamento?

Estragado – Árvore?

Vladimico – Para o enforcamento, idiota. Depois falaram em nos amarrar na cruz até a morte. Estávamos fodidos de todo jeito.

Estragado – Parece que eu havia escutado você dizer que o tempo era deserto (olha em torno). Tudo deserto, a não ser esta pedra colorida.

(Vladimico aproxima-se desconfiado do personagem enrodilhado).

Vladimico – Isto não é uma pedra colorida. (Apalpa o personagem).

Estragado – Uma pedra e mais nada. Não há nada, mas uma pedra. Uma pedra que é nada, e nada que será…

Vladimico (berra) – Pára com esta merda, porra. Que ladainha de bosta!

Estragado – Uma pedra, pronto.

Vladimico (chutando o personagem que rola pelo chão sem se descobrir e depois se imobiliza) – Vê? Pedra nenhuma. Apenas mais um personagem neste teatro esquisito.

Estragado (olhando em torno) – Teatro?

Vladimico – Modo de dizer. Linguagem figurada. Esquece.

Estragado (se aproximando do personagem) – Uma pedra que respira?

(Vladimico vai lutar para desembrulhar o personagem. Luta com ele, rola pelo chão, enquanto Estragado saltita em torno desesperado. Depois de muito esforço Vladimico dá a entender para a platéia que conseguiu descobrir o rosto do personagem, que está de costas e invisível para o público.)

Vladimico (contabilizando para a platéia) – Dois olhos, um nariz, um pedaço de boca, alguma barba escura. (Volta-se para Estragado). Você chama isso de pedra?

Estragado (extasiado) – Uma pedra que respira!

Vladimico (examina o rosto invisível) – Um personagem, como eu e você. Todos respirando, porra.

Estragado (que está de lado e não pode ver o rosto do personagem, que afinal está praticamente enrodilhado com Vladimico) – Esta pedra se parece com Godot.

Vladimico (erguendo-se lentamente, como se estivesse acordando de um sonho) – Bem que este rosto não me era desconhecido. Ai de nós, que tanto esperamos Godot.

Estragado (abaixando-se e examinando o que seria o rosto do personagem embrulhado nos panos coloridos e reluzentes) – Você disse que este personagem, que esta pedra tinha barba? (Dirige-se para o público) Mas é uma criança, barba nenhuma, parece uma mocinha, uma adolescente.

Vladimico (em êxtase) – Godot chegou. Fez morada entre nós. E no mais fundo de cada um de nós. Ele chegou, aleluia, hare krishna, iluminados salamaleques.

Estragado (ríspido) – Chegou e arribou. Não é pedra, nem Godot. Um bebê cagado e mijado enrolado nesses panos tão bonitos.

Vladimico (em êxtase) – É que o mito não tem idade. Transparência. Esperamos uma eternidade. Mudamos de pele infinitas vezes. Fomos reis e mendigos. Santos e homicidas. Só ele poderia dar sentido à eternidade, a essa enxurrada de máscaras que no fundo é o vazio, beijar a carne do infinito. Godot chegou. Podemos ficar aqui o tempo inteiro. Tudo agora tem sentido.

Estragado – Mas se aqui é o fim do mundo, o que é que você quer dizer com ‘tudo agora tem sentido’?

Vladimico – Sentir o fim da estrada é sempre isto: tudo por se fazer ou nada feito mesmo.

Estragado – Mas eu estou cansado de já ter feito mil coisas desde ontem.

Vladimico – Para nada.

Estragado – Para mim mesmo.

Vladimico – O tempo vai semeando esqueletos de lembranças até tudo acabar. E quando acabar, puff, já era!

Estragado (sonhador) – Mas se Godot chegou, hoje tudo recomeçou.

Vladimico (ríspido) – Tudo? Hoje? Recomeçou? Acho que você ‘tá sempre de porre. (olhando Estragado de alto a baixo) Sabe, você nem existe.

Estragado – Nem é muito provável.

Vladimico – O quê?

Estragado – Que tudo tenha sido um sonho.

Vladimico – Sonho de quem? Você é um inferno, troca tudo de lugar.

Estragado – Não importa. As coisas vão ser sempre iguais.

Vladimico (enfadado) – Essa conversa não tem pé nem cabeça.

Estragado – Nem sapato e nem chapéu. Manda outra.

Vladimico (ainda com enfado) – Não tem chulé nem café.

Estragado (com vivacidade) – Nem rapé e nem muié. Manda outra.

Vladimico (berra) – Pára, pára! (depois que o silêncio se instala) E ainda tem gente que pensa que a luz do universo mora entre nós. (pausa) Se o que permanece mesmo é o silêncio. Depois, como é que uma pessoa perdida nesses desertos cospe uma porção de palavras no vento e até hoje tantos o idolatram? Quem sabe Godot pode agora nos explicar tudo.

(Enquanto Vladimico vai falando, e também durante as próximas falas, surge um personagem embuçado, coberto com manto negro e com uma corda na mão. Dá a entender, após muitos esforços, que amarrou uma das extremidades da corda no pescoço invisível do personagem de roupas reluzentes. Começa então a retirar-se de cena arrastando pelo pescoço o personagem de roupas coloridas – que às vezes resiste – como se fosse um cachorro, até ambos desaparecerem.)

Estragado – Do que você está falando, Vladimico?

Vladimico – Escute bem, Estragado. Um de nós pode ter sido salvo. Acontece que um dos quatro evangelistas, dois deles não mencionaram a existência de nenhum ladrão amarrado em nenhuma cruz. Talvez imaginassem que fomos enforcados, ou simplesmente nos ignoraram. Dos dois evangelistas que sobraram, um disse que existiram dois ladrões que xingavam o tempo todo o Salvador, enquanto o último evangelista falou que eram dois ladrões e que um deles tinha pedido perdão e fora salvo. A confusão é muito grande. Em termos estatísticos, 50% dos evangelistas não falou de ladrões; para 25% são dois ladrões a xingarem o Salvador; para o restante 25%, também dois ladrões, sendo que um xingava e o outro pedia perdão. Se nem eles se entendem, como é que vamos saber se algum de nós foi salvo ou não? (neste ponto o personagem embuçado e o de roupas reluzentes desaparecem por completo).

Estragado – Salvo do quê? Da salvação dos ladrões?

Vladimico – Da puta-que-o-pariu! Vai ser jumento assim na casa do cacete!

Estragado (olha em torno, pega a roupa branca no chão e começa a se vestir cantarolando) – Ninguém nunca veio, ninguém nunca virá, háháháhá.

Vladimico – Estava agora mesmo aí no chão, com todas as estrelas, todos os céus nas mãos. E ninguém o reconheceu. (Procura desesperadamente alguma coisa no chão. Depois, desanimado, pega a sua roupa branca e começa a se vestir também).

Estragado (já vestido, aos poucos vai retornando à posição original, integrando-se mimeticamente ao branco total do palco) – Ele chegou em forma de pedra, em forma de pedra ele chegou.

Vladimico (também retornando à posição original) – Se ao menos a gente se lembrasse da ventania que soprou depois de todos aqueles gritos entre as cruzes no alto da colina de pedra…Uma tempestade para lavar todo o pesadelo cravado naquela pedreira abandonada…Afinal, quantas cruzes eram? Estragado, eram mesmo cruzes? Ou só teatro no vento?

Estragado – É verdade, nós devíamos estar nus, amarrados dentro do vento.

Vladimico – E então? Vamos esperar?

Estragado (perplexo) – Alguma vez já começamos a esperar?

Vladimico (desanimado) Você nunca entendeu porra nenhuma do que eu disse. Nunca pegou a palavra, rasgou-a em mil pedaços, mordeu a polpa escura, esse pedaço de sombra, esse coágulo de nada. Merda. Alguma vez você viu refletido no fundo de alguma palavra todo esse sangue que escorre sem cessar no mundo?

Estragado – Fique tranqüilo. Repare como as coisas vão continuar a respirar. Respire. De qualquer jeito tudo vai continuar a respirar. Respire. Respire.

Vladimico – Vá até a sala, imbecil, tire a porra do chapéu e cumprimente todo mundo. Afinal todos estavam esperando alguma coisa também.

Estragado (imóvel) – Pois é. E nós, hein, que nem mesmo sabemos o que é esperar! (pausa) De tudo o que a gente diz escorre sempre depois uma lua murcha. (voz forte) Uma lua murcha. (cantarolando em grasnidos, enquanto Vladimico rola no chão a berrar repetidamente “pare com esta merda”) Murchaaá, marmuchurchamurchalalá, murchuaaá, marurchulalalá…

Luzes se apagam. Cortina.