O grito

edvard-munch

Passeando pelo Papel de Rascunho, blog da poeta Virna Teixeira, me deparei com a pintura de Edvard Munch, O grito. (Essa aí de cima.) Além do grito, fiquei tentada a deslocar para cá o poema dela – até então desconhecido por mim –, que compõe o mesmo post do dia 10 de janeiro. Mas, em vez disso, sugiro que vocês cliquem no link acima e visitem esse blog, que traz sempre alguma exposição literária interessante, principalmente na área da poesia.

Aproveitando o ensejo – isto é, tendo roubado o grito e sido um pouco roubada por ele –, transcrevo dois trechos da Heterotanatografia e quatro poemas contidos no livro “Certeza do agora”, de Juliano Garcia Pessanha. Ainda não conhecia o autor, era um dia de sorte, e encontrei o exemplar numa banca de livros, dessas que agora estão sendo perseguidas pelo “choque de ordem”. (E dessa “ordem” não entendo, pois a minha ordem de domingo desestruturou-se no momento em que me confrontei com os guardas municipais confiscando os livros da banca que visito semanalmente.)

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O homem que abriu uma brecha na cidade ao gritar do viaduto e da janela do edifício estará em condições de começar a falar se ele não esquecer e não suprimir o grito ao voltar para o seu quarto, mas se, ao contrário, permanecendo no elemento do grito, começar a ser apenas e tão-somente a partir do elemento do grito, de tal modo que já não é a cidade e o edifício que assistem ao grito, mas é o grito quem olha o edifício e a cidade. Estou autorizado a falar não em virtude da minha formação cultural ou de anuência consentida pelo prêmio-literário, nem em função de algum embuste chamado competência comunicativa, mas porque falo a partir de uma dor tão antiga que ela já estava presente na única memória deixada pela criança que fui.

(…)

Vale dizer que logo nos primeiros instantes, tendo colocado a cabeça para dentro da maternidade e não tendo podido dependurar-me no sorriso-mãe, pois o sorriso-mãe, enquanto armação sinistra do bem já não guardava nenhuma lembrança de minha essência, fui obrigado a desdizer o mundo e a retroceder até a região das antecâmaras. E é preciso assinalar que logo nesse primeiro recuo corri o imenso risco de tornar-me um grito eterno e de cair para sempre na direção do nunca, a exemplo de uma grande quantidade de pessoas que conheci e com quem convivi, pessoas que se encontram dependuradas apenas num fiapo de palavra ou no fiapo de alguma esquisitice para não desaparecerem e para não sumirem para sempre, pessoas que são sistematicamente destruídas e aniquiladas pelos funcionários do bem, e os funcionários do bem, quer dependurados na velha caridade cristã, quer dependurados no moderno saber biológico-psiquiátrico, afastam constante e permanentemente qualquer possibilidade de relação humana com a dor humana, pois tanto a caritas cristã enquanto negócio do coisa-deus quanto a medicação psiquiátrica enquanto negócio do programa-científico exorcizam incessantemente o rosto do homem, e se afirmo isso, eu o afirmo de boca cheia, pois experimentei em meu próprio corpo a posição de ostracismo a que me conduziu a boca do consolo e a posição de abandono a que me conduziu a mão que medica e sei, na forma de um saber concreto, que a boca do consolo olha apenas para o alto e encontra-se inteiramente mediatizada pelo olho daquele que tudo vê, e o olho daquele que tudo vê gera nos homens apenas atos intencionais e os atos intencionais, precisamente enquanto intencionais, não passam de atos mortos e auto-referentes e, nessa condição, jamais alcançarão o rosto do homem que espera, o mesmo ocorrendo com a mão que medica, pois a mão que medica, ao se refugiar e se proteger no diagnóstico e ao olhar sistematicamente na direção do saber e do diagnóstico, empurra novamente para o limbo o rosto do homem que sofre, tornando esse mesmo homem cada vez mais só e cada vez mais desesperado.

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Poema da Vida Consumada

     Quero morrer sozinho ao lado de um córrego, de um córrego de nome estranho, de um córrego de nome córrego. Quero morrer sozinho e que um abutre leve meus olhos e algum animal as vísceras. Quero morrer tão completamente que a minha vida, mera mímesis de uma ordem fria, alcance o esquecimento último no qual o córrego seja restituído ao córrego.

Conjugação

     Desde pequeno eu temi a sombra amorosa e, quando me arrumaram uma namorada, eu fugi cheio de um sagrado medo. É que eu já sabia que o amor é uma visitação na qual despedida e cumprimento se conjugam para melhor rememorar a imensidão do nosso exílio.

Segredo de um Amor I

     Eu andei com você pela cidade e eu nomeei os lugares e a vida-sonho de cada rosto que cruzamos. E você se assustou com a intensidade dessa extensão vazia, se assustou ao ver que o homem ao teu lado não tinha lugar nem nome, e era na dor que ele colhia a palavra do poema.
(Como amar o habitante do país do exílio?)

Segredo de um Amor II

     Para ganhar o amor de uma mulher eu imitei o homem coberto e o homem pendurado. Estudei todos os sistemas e dominei as artimanhas do satanismo da luz. Empenhei-me na “magia negra da sensualidade” e na feitiçaria do erotismo… Um dia, exausto, eu precisei partir.
     Eu cruzei doze cidades, sempre olhando as casas pelo lado de fora e espantado porque do rosto dos homens havia sumido o encanto.
     Foi só na última cidade que notei a mulher ao meu lado e vi que a mulher na mulher amava o exilado.
     (E foi essa a única revelação que me nutriu.)

Juliano Garcia Pessanha (1962, São Paulo, Brasil) estudou direito e filosofia. É professor e dirige oficinas de escrita em hospitais psiquiátricos de São Paulo. Autor da trilogia — Sabedoria do nunca (1999, com textos que ganharam o Prêmio Nascente, promovido pela Abril/USP), Ignorância do sempre (2000) e Certeza do agora (2002). Nesses livros de difícil classificação, Pessanha mistura ensaio, poesia e ficção.
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Virna Teixeira é poeta e tradutora. Nasceu em Fortaleza em 1971, é graduada em Medicina pela UFC, com residência em Neurologia pela Universidade de São Paulo, mestrado em Medicina do Sono pela Edinburgh University e especialização em Dependência Química pela UNIFESP. Mora em São Paulo há vários anos, onde trabalha como neuropsiquiatra. Publicou dois livros de poesia pela 7 letras, Visita (2000) e Distância (2005) e os livros de tradução “Na estação central” do poeta escocês Edwin Morgan pela coleção “poetas do mundo” (editora UnB, 2006) e antologia de poesia escocesa “Ovelha Negra” (Lumme Editor, 2007). Atualmente cursa doutorado em Letras no departamento de Lingüística da USP. Participou da Flap! 2006.

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FLAP 2006: Proposta

Seguindo o tema Embates, com a proposta de debater visões distintas sobre literatura e manter vivo um terreno fértil de questionamentos, a FLAP! 2006 acontece em dois fins de semana de julho. Dias 29 e 30 o Espaço dos Satyros I, teatro localizado na Praça Roosevelt, em São Paulo, recebe diversos debates com a presença de escritores, professores, editores, cineastas e muito outros participantes. A novidade neste ano é que a FLAP! também acontece no Rio de Janeiro, nos dias 22 e 23 de julho na UniverCidade (Unidade Ipanema). Como sempre, o evento é gratuito e aberto ao público em geral. Em ambas as cidade a programação inclui debates sobre políticas culturais, periferias e ainda mesas de debate em esquema de arena livre, abrindo espaço para uma reflexão sobre o presente e o futuro da literatura (“onde estamos?” e “para onde vamos?”).

O intuito da FLAP! é, ainda, evitar uma certa acomodação de opiniões nas mesas de discussão, quando todos parecem concordar com todos (e as discordâncias acabam sendo relegadas ao plano da fofoca). Vamos criar um espaço em que fiquem mais claros critérios e distintas nuances entre posições.

A edição de São Paulo traz, dentre outros convidados, o cineasta Sérgio Bianchi, a vereadora Soninha Francine, o crítico Manuel da Costa Pinto, o jornalista Ivan Marques e escritores como Luiz Ruffato, Frederico Barbosa, Claudio Willer e Xico Sá. Já o Rio de Janeiro conta com a participação de escritores como Affonso Romano de Sant’Anna, Chacal, Afonso Henriques Neto, Claudia Roquette-Pinto e Marcelino Freire.

Por fim, a FLAP! não quer dizer nada em específico e haverá novamente um concurso para o público criar significados para a sigla.

FLAP 2006: Programação – Rio de Janeiro

FLAP! Rio 2006 – Embates
Data: 22 e 23 de julho de 2006
Local: UniverCidade – Av. Epitácio Pessoa, 1664, auditório

RJ: Sábado, dia 22, 10h
Arena Livre – Onde Estamos?
Mesa: Thiago Ponce
Poeta
– Antonio Vicente Pietroforte
Prof. da Lingüística, FFLCH-USP
– Marcus Alexandre Motta
Prof. de Literatura Portuguesa e Artes, UERJ
– Virna Teixeira
Poeta
– André Gardel (a confirmar)
Poeta. Prof. de Lit. Brasileira e Portuguesa na UniverCidade

RJ: Sábado, dia 22, 12h
Periferias?
Mesa: Pedro Tostes
Escritor, Poesia Moloque(i)rista

Conferência:
Cultura Contemporânea: Redefinição do Centro e da Periferia
Affonso Romano de Sant’Anna
Escritor e Crítico Literário

RJ: Sábado, dia 22, 15:30h
Gestão de Políticas Culturais
Mesa: Donny Correa
Poeta, Coordenador, Casa das Rosas – SP
– Raphael Vidal
Revista Bagatelas – Revista de Contos
– Jorge Rocha
Escritor e Jornalista
– Anna Paula Martins
Editora, Dantes
– Eduardo Lacerda
Poeta, Editor do O Casulo – Jornal de Poesia Contemporânea

RJ: Domingo, dia 23, 12h
“…malditosneobarrocoslanguagemarginais neoconcretosmalarmaicosdrummondanos
diluidores…”
Mesa: Priscila Andrade
Poeta
– Marcelo Diniz (a confirmar)
Poeta e Professor
– Afonso Henriques Neto
Poeta
– Sérgio Cohn
Poeta, Editor da Azougue Editorial
– Chacal
Poeta
– Leila Míccolis
Escritora de livros, cinema, teatro e TV. Co-editora de Blocos Online

RJ: Domingo, dia 23, 15:30h
Arena Livre – Para Onde Vamos?
Mesa: Marcelino Freire
Escritor
– Claudia Roquette-Pinto
Poeta
– Maria Rezende
Poeta
– Fabio Aristimunho Vargas
Poeta
– Francisco Bosco
Ensaísta

FLAP 2006: Programação – São Paulo

Espaço dos Satyros I
Pça. Roosevelt, 214 – Centro

SP: Sábado, dia 29, 10h
Arena Livre – Onde Estamos?
Mesa: Eduardo Lacerda
Poeta, Editor do O Casulo
José Antonio Pasta Jr. (a confirmar)
Prof. de Lit. Brasileira, FFLCH-USP
Frederico Barbosa
Poeta e Diretor da Casa das Rosas
Manuel da Costa Pinto
Crítico Literário
Xico Sá
Escritor
Tarso de Melo
Poeta

SP: Sábado, dia 29, 12h
Periferias?
Mesa: Allan da Rosa
Poeta, Edições Toró
André du Rap (a confirmar)
Rapper e escritor
Bruno Zeni
Escritor e crítico literário
Ferréz
Escritor
Sérgio Vaz
Escritor
Sérgio Bianchi
Cineasta

SP: Sábado, dia 29, 15:30h
Gestão de Políticas Culturais
Mesa: Victor del Franco
Poeta
Donny Correia
Poeta, Coordenador Cultura, Casa das Rosas
Carlos Augusto Machado Calil (a confirmar)
Secretário Municipal de Cultura (SP)
Prof. Audiovisual ECA-USP
Maria Silvia Betti
Depto. Letras Modernas, FFLCH-USP
Ademir Assunção
Poeta
Soninha Francine
Vereadora

SP: Domingo, dia 30, 12h
“…malditosneobarrocoslanguagemarginais neoconcretosmalarmaicosdrummondanos
diluidores…”
Mesa: Marcelo Rezende
Jornalista e Escritor
Luiz Ruffato
Escritor
Claudio Willer
Poeta
Cláudio Daniel
Poeta, Editor da Zunái

SP: Domingo, dia 30, 15:30h
Arena Livre – Para Onde Vamos?
Mesa: Daniela Oswald Ramos
Poeta
Ivan Marques
Jornalista, Editor do Entrelinhas, TV Cultura
Andréa Catropa
Poeta, crítica literária, editora do O Casulo
Nelson de Oliveira
Escritor
Dirceu Villa
Poeta