Thot

thot

        Pois o deus da escritura é também, isso é evidente, o deus da morte. Não esqueçamos que, no Fedro, também se censurará à invenção do pharmákon o substituir o signo ofegante à fala viva, o pretender prescindir do pai (vivo e fonte de vida) do lógos, o não poder mais responder por si como uma escultura ou uma pintura inanimada etc. Em todos os ciclos da mitologia egípcia, Thot preside a organização da morte. O mestre da escritura, dos números e do cálculo não inscreve apenas o peso das almas mortas, ele teria, inicialmente, contado os dias da vida, enumerado a história. Sua aritmética abrange também os acontecimentos da biografia divina. Ele é “aquele que mede a duração da vida dos deuses (e) dos homens”. Ele se comporta como um chefe do protocolo funerário e encarrega-se, em particular, da limpeza do morto.
        Por vezes o morto ocupa o lugar do escriba. E no espaço dessa cena, o lugar do morto recai sobre Thot. Pode-se ler sobre as pirâmides a história celeste de um morto: “Aonde ele vai, pois?, indaga um grande touro que o ameaça com seu chifre” (outro nome de Thot, noturno representante de Ra, é, digamos de passagem, “o touro entre as estrelas”). “Ele vai ao céu, pleno de energia vital, para ver seu pai, para contemplar Ra, e a criatura medonha o deixa passar.” (Os livros dos mortos, dispostos no sarcófago junto ao cadáver, continham em particular fórmulas que deveriam lhe permitir “sair à luz do dia” e ver o sol. O morto deve ver o sol, a morte é a condição e até mesmo a experiência desse face a face. Pensemos no Fédon.) Deus o pai o acolhe em sua barca e “acontece até mesmo que ele destitua seu próprio escriba celeste e coloque o morto em seu lugar, de tal forma que este julga, é o árbitro e dá ordens a alguém que é maior que ele”. O morto também pode se identificar simplesmente a Thot, “ele se chama simplesmente um deus; ele é Thot, o mais forte dos deuses”.
        A oposição hierárquica entre o filho e o pai, o súdito e o rei, a morte e a vida, a escritura e a fala etc. completa seu sistema naturalmente com aquela entre a noite e o dia, o Ocidente e o Oriente, a lua e o sol. Thot, o “noturno representante de Ra, o touro entre as estrelas”, está voltando para o oeste. Ele é o deus da lua, quer se identifique a ela, quer a proteja.
        O sistema desses caracteres faz funcionar uma lógica original: a figura de Thot opõe-se ao seu outro (pai, sol, vida, fala, origem ou Oriente etc.), mas suprimindo-o. Ela se liga e se opõe repetindo-o ou tomando seu lugar. De um só golpe, ela toma forma, ela adquire a forma daquilo mesmo ao que ela resiste, ao mesmo tempo, e se substitui. Ela se opõe, desde então, a si mesma, passa em seu contrário, e esse deus-mensageiro é mesmo um deus da passagem absoluta entre os opostos. Se tivesse uma identidade – mas precisamente ele é o deus da não-identidade –, ele seria essa coincidentia oppositorum à qual recorremos novamente. Distinguindo-se de seu outro, Thot também o imita, torna-se seu signo e representante, obedece-lhe, conforma-se a ele, o substitui, quando preciso, por violência. Ele é, pois, o outro do pai, o pai e o movimento subversivo da substituição. O deus da escritura é portanto, de uma só vez, seu pai, seu filho e ele próprio. Ele não se deixa assinalar um lugar fixo no jogo das diferenças. Astucioso, inapreensível, mascarado, conspirador, farsante, como Hermes, não é nem um rei nem um valete; uma espécie de joker, isso sim, um significante disponível, uma carta neutra, dando jogo ao jogo.
        Esse deus da ressurreição interessa-se menos pela vida ou pela morte do que pela morte como repetição da vida e pela vida como repetição da morte, pelo acordar da vida e pelo recomeçar da morte. É o que significa o número do qual é também o inventor e o patrão. Thot repete tudo na adição do suplemento: suprindo o sol, ele é outro que o sol e o mesmo que ele; outro que o bem e o mesmo que ele etc. Tomando sempre o lugar que não é o seu, e que se pode chamar também o lugar do morto, ele não tem lugar nem nomes próprios. Sua propriedade é a impropriedade, a indeterminação flutuante que permite a substituição e o jogo. O jogo do qual é também o inventor; Platão mesmo o lembra. Deve-se-lhe o jogo de dados (kubeía) e o gamão (petteía) (274d). Ele seria o movimento mediador da dialética se também não o imitasse, impedindo-o com essa dublagem irônica, indefinidamente, de terminar em algum cumprimento final ou alguma reapropriação escatológica. Thot nunca está presente. Em nenhuma parte ele aparece em pessoa. Nenhum ser-aí lhe pertence propriamente.
        Todos os seus atos serão marcados por essa ambivalência instável. Esse deus do cálculo, da aritmética e da ciência racional comanda também as ciências ocultas, a astrologia, a alquimia. É o deus das fórmulas mágicas que acalmam o mar, narrativas secretas, textos ocultos: arquétipo de Hermes, deus do criptograma não menos que da grafia.
        Ciência e magia, passagem entre vida e morte, suplemento do mal e da falta: a medicina devia constituir o domínio privilegiado de Thot. Todos os seus poderes resumiam-se aí e, aí, achavam onde se empregar. O deus da escritura, que sabe pôr fim à vida, cura também os doentes. E mesmo os mortos. As estrelas de Horus sobre os Crocodilos contam como o rei dos deuses envia Thot para curar Harsiesis, picado por uma serpente na ausência de sua mãe.
        O deus da escritura é pois um deus da medicina. Da “medicina”: ao mesmo tempo ciência e droga oculta. Do remédio e do veneno. O deus da escritura é o deus do phármakon. E é a escritura como phármakon que ele apresenta ao rei no Fedro, com uma humildade inquietante como o desafio.

Derrida, Jacques. A Farmácia de Platão. São Paulo, Iluminuras, 2005.