eXato acidente

Já conferiram o último do Tony? O livro fala por si, segue um trecho:

Dançando foi que eu percebi que as disputas podem ser diferentes e que, talvez, os cachorros sobrevivam. Imaginei o portão vazio e a sensação de vitória nos primeiros dias sem cachorro na vizinhança. Imaginei também o vazio das frases do dono do bar quando eu passasse lá sem me julgar melhor por ter um motivo para viver. Viver é umas vezes matar cachorros. Pensei que, tão logo eu matasse o primeiro, ficaria muito mais difícil matar um segundo. Os homens estariam de olho. E os cachorros poderiam mudar de humor nesse meio tempo, poderiam ficar quietos. Eu sairia de manhã com o sono satisfeito, andaria pela rua e nada, sem perspectivas. Seria preciso encontrar outra questão de vida e morte. A gente dança de noite e, no fim, o toureiro não mata o touro. Dormem os dois. Cheguei a achar que preciso dos cachorros para alimentar meu mau humor e minha vontade de dançar. Prazer compensatório. Se os cachorros ficassem em silêncio, eu dormiria e perderia o gosto pelo bailado? Talvez o seu Roberto continue trabalhando para ter com o que brigar.

(Monti, Tony. eXato acidente. São Paulo, Hedra, 2008 )

Herberto Helder

O quarto

Ele pareceu não entender a alusão. Voltou para mim o rosto irônico e perguntou:
– A que se referia?
– À morte – respondi.
– Sim, eu também falava da morte. Mas surpreendeu-me que você estivesse a pensar o mesmo.
– Pensamos todos no mesmo a partir de certa altura.
– Talvez – murmurou, e a voz tinha uma ponta de orgulho. – Mas nem todos de igual maneira. Sou forte. Por isso é que penso nela. Detesto a fraqueza que se remedeia na imaginação, nas hipóteses. Não creio em nada. Não desejo crer em nada.
– Pensa que vai morrer quando quiser?
Olhou-me em cheio, sorriu. Tinha uma viva e nobre cabeça de homem antigo. Parecia saber muito. Não devia acreditar em nada. Notava-se no olhar culto e virilmente triste.
– É isso. Trabalho na minha morte. Um homem verdadeiro tem direitos e deveres para com a sua morte. Sabe que estou a construir uma casa?
– Sim, já mo disse.
– Conhece o sítio? – E as palavras subentendiam ramificações de sentido, outras intenções. Mas a voz era impertubável. Este homem morreria da sua própria morte, dentro dela.
– Conheço. Fica na outra costa da Ilha. Há a montanha sem árvores. Pedra e urzes. Pavoroso. Defronte fica o mar. O mar lá é bravio.
– É água cinzenta e branca. E atrás há a grande montanha por onde só andam cabras. Mas na planície, à direita, crescem as árvores onde o vento do mar vem bater. De noite tudo aquilo vibra e uiva. E a terra arenosa estende-se pelo outro lado de fora. Quando há tempestade é de uma beleza diabólica. Bom para nos sentirmos sós, para saber se ainda existe o orgulho do medo.
– Compreendo que construa aí a sua casa.
– Construo a casa muito devagar. É a minha última tarefa. Forço os operários a trabalhar lentamente. Estão espantados. O capataz supõe que sou louco. Nunca custou tão caro uma casa de um só piso. Quando ficar pronta já nada mais terei a fazer. Seria estúpido procurar sobreviver-me. Sou um homem sensato. É de sangue. Meu avô correu mundo e veio morrer na cama onde nascera. Meu pai andou pelas guerras depois de me ter gerado, e lá morreu. Homens que fizeram uma tarefa e nela puseram o sentido da sua vida. E deram-se por cumpridos, e regressaram ou morreram. Sabedoria, não é? Não quero ser fútil. É o único pecado do espírito. Ponho a minha força toda nas razões da vida. Isto quer dizer que me preocupam a oportunidade e a qualidade da minha morte. Pareço…enfim, digamos, pareço…solene?…
Riu.
– Sou, como direi?, sou um homem religioso.
– No entanto…
– Claro, não acredito em nada disso…nessas coisas…imortalidade da alma…Deus, o barroco Deus teológico… o bem comezinho, o mal comezinho…Detestável, tudo isso, as crenças e virtudes da baixa religiosidade.
– Talvez creia – disse eu – que vida e morte se abram uma para a outra, se alimentem mutuamente. Que seja cada uma delas uma espécie de duplo da outra. Se animem e, por assim dizer, se justifiquem e signifiquem entre si.
– Que exprimi-lo desse modo? – As mãos traçaram sutilmente um gesto de irônica concessão. – Talvez seja isso… Aos vinte e cinco anos fui viajar. Estive em muitos países. Vivi alguns anos em várias das maiores cidades do mundo. Valeu a pena. Não há raças nem países. O homem é estúpido. E precisa que o amem, precisa amar. Um pouco repugnante, não? Mas pode-se amá-lo, assim repugnante. Depois parei, vim para a Ilha. E os círculos foram-se apertando. Hoje não saio deste café e do hotel, não estou a seguir o andamento das obras. Daqui a algum tempo mudo-me para a casa. Depois… Compreende o que digo quando falo de espírito religioso?
– Sim, parece-me que sim…
– A casa tem três quartos, além de cozinha, casa de banho e despensa. Um é o quarto de dormir; o outro, a sala de jantar, e o terceiro…Não adivinha?… Não, não pode adivinhar…
– Noutras circunstâncias eu diria que era, por exemplo, a biblioteca…
– Noutras circunstâncias. Agora não leio. Vou morrer. Ouça: a casa é assoalhada. As casas são naturalmente assoalhadas, não é?
– Claro.
– Sim, mas esse quarto não é assoalhado.
– Mais um espanto para o capataz – disse eu sorrindo.
– E para si também.
– Também para mim. Por que não assoalha esse quarto?
– Durante um ano vou viver naquela montanha, na mata, na terra arenosa diante do mar. Vou entrar e sair da casa e vaguear por esses lugares todos. E então sentirei que não devo sair mais, e ficarei em casa andando de um quarto para outro.
– No quarto sem soalho, também?
Não respondeu.
– Lembra-se de lhe ter falado no vento marítimo batendo nos pinheiros? E na alta montanha, intransitável atrás da casa?
– Lembro-me. Conheço o sítio, já lhe disse.
– O barulho do mar e do vento. A montanha, a idéia da montanha impraticável. E depois a terra arenosa, por ali fora. E a solidão. E sentir sobretudo que já não pode haver medo. Fecho as portas da casa, a porta de saída e as portas dos quartos entre si. E fico no quarto sem soalho e deito-me no chão. Ouço o mar e o vento à frente e atrás da montanha solitária e poderosa. Depois encosto a cara à terra profundíssima para escutar o seu úmido sussurro atravessando-a toda e passando por mim. E então poderei morrer.

(Helder, Herberto. Os Passos em Volta. Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2005)

Para quem quiser mais, seguem alguns links sobre o escritor português:

http://www.triplov.com/herberto_helder/index.html
http://www.culturapara.art.br/opoema/herbertohelder/herbertohelder.htm
http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/herberto.helder.html
http://www.secrel.com.br/jpoesia/hh.html#amor