O novo acordo ortográfico – II

suplicio

O Vinicius andou colocando o sambinha do acordo ortográfico por aqui. Agora é minha vez. A verdade é que, querendo ou não, preciso meter essa coisa na cabeça o quanto antes. Há rumores de que as ambiguidades serão esclarecidas nos próximos meses, de que chegará o livro oficial etc. Enfim, de toda forma, como não posso aguardar – nesse caso realmente tempo é dinheiro; e dinheiro, em alguma medida, é preciso –, transcrevi todas as regrinhas do livro do Maurício Silva para o computador. (A transcrição é técnica bastante utilizada por atores, quando necessitam decorar um texto.) Ao fazê-lo, lembrei novamente de um trecho do livro do Juliano, o Certeza do agora – ao qual me referi no post de segunda-feira.

“Ali eu jogava munição para dentro da cabeça, eu assistia à munição entrando para dentro da cabeça, e eu não ligava TV nem rádio, pois eu temia que as munições se misturassem, que eu escrevesse uma notícia em vez de um número. Ali eu segurei minha cabeça e atravessei a época-colégio! Na época-colégio eu aprendi a disciplina do massacre. Eu aprendi que a realidade inteira não passava de mentira. Soube da GRANDE FALCATRUA. Eu sabia que eu era um idiota, um destituído de qualquer inteligência, só podia ser isso, o silogismo era fácil, afinal, ali no lugar-colégio, nenhuma sílaba, nenhum teorema, nenhuma palavra fizeram o menor sentido! A culpa só podia ser minha! Eu me dizia: ‘Você não sabe pensar! Mas é necessário derrotar aquelas provas e não ser mandado para uma escola de débeis e de anômalos. Tudo é memória e imitação, ele-eu me dizia para mim. Os animais da selva sabem imitar. Você é como eles!’ Então eu sentava na escrivaninha, ereto como um guarda romano, e formalizava todos os tipos de soluções possíveis no repertório dos problemas. Geralmente eram três ou quatro variações de estruturas. No mais, só se alteravam os números. No dia seguinte eu ficava de prontidão e, ao olhar a lousa ou ler a prova, fazia uma identificação repentina. Se isso não ocorresse, eu era invadido pela tempestade de pânico e o meu corpo podia se desmantelar num oceano de formigamentos. Mas à noite eu sempre tinha rezado a um deus para que ele mantivesse minha cabeça intacta: ‘Peço ao senhor que tudo o que eu coloquei em minha cabeça esteja ainda lá amanhã de manhã e que eu seja capaz de recordar. Faça isso pra mim.’ O excepcional é que ‘o meu método’ dava certo e eu conseguia fazer quase tudo sem compreender absolutamente nada. Passei a ser tomado como um dos melhores alunos da escola. Eu ocultava meu método com toda artimanha possível, temendo a descoberta do segredo. Durante anos fui eleito pelos colegas o ‘presidente da classe’, os professores corroboravam meu nome. Minha popularidade e liderança eram jogos de astúcia e eu as estranhava muito. Eu sabia que minha vida era uma guerra desconhecida, uma batalha no planeta diferente.
(…)
Eu sabia que tudo aquilo, toda aquela desenvoltura escolar e toda aquela facilidade exterior eram pseudo; eram mentira. Por que os olhos do mundo são tão cegos? Por que os homens acreditam tanto na deusa realidade? Por que não falam da GRANDE FALCATRUA?”

E para quem precisa, como eu, decorar a prova para passar de ano na escola – ou para não perder a cabeça –, segue o novo acordo ou mais um fragmento dessa grande falcatrua:

Alfabeto 1. Incorporação das letras K, Y e W. 2. Manutenção ou simplificação, nos nomes próprios hebraicos de tradição bíblica, dos dígrafos finais –ch, -ph e –th pronunciados. Ex. Baruch ou Baruc, Enoch ou Enoc, Moloch ou Moloc, Loth ou Lot. 3. Eliminação ou adaptação, nos nomes próprios hebraicos de tradição bíblica, dos dígrafos finais –ch, -ph e –th mudos e de alguns pronunciados. Ex. Joseph vira José; Nazareth – Nazaré; Judith – Judite, Beth – Bete; Ruth – Rute. (Permanecem, claro, os nomes próprios registrados em Cartório de Registro Civil.) 4. Manutenção ou eliminação, em antropônimos e topônimos consagrados pelo uso, das consoantes finais. Ex. Madrid ou Madri, David ou Davi etc. As duas formas estão corretas. 5. Substituição, sempre que possível, dos topônimos estrangeiros por formas vernáculas correspondentes. Ex. Antes tanto fazia usar Anvers ou Antuérpia, Milano ou Milão, Zürich ou Zurique, Nova York ou Nova Iorque, Quebec ou Quebeque, London ou Londres. Agora, deve-se optar pela segunda forma. Quando o topônimo não possuir correspondente no vernáculo (Buenos Aires, Los Angeles, Washington etc.), mantém-se a grafia original.

Letras maiúsculas e minúsculas 1. Mantém-se a letra minúscula nos nomes de meses, estações do ano e dias de semana. 2. Adota-se a letra minúscula nos nomes dos pontos cardeais. Ex. norte, sul, leste, oeste. 3. Emprego facultativo da letra minúscula nos vocábulos que compõem uma citação bibliográfica, com exceção do primeiro vocábulo e daqueles obrigatoriamente grafados com maiúscula. Ex. Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Memórias póstumas de Brás Cubas, O Espírito das Leis ou O espírito das leis, Em Busca do Tempo Perdido ou Em busca do tempo perdido etc. 4. Emprego facultativo de minúscula nas formas de tratamento e reverência (axiônimos), bem como em nomes sagrados e que designam crenças religiosas (hagiônimos). Ex. Santa Isabel ou santa Isabel, Governador Mário Covas ou governador Mário Covas, Vossas Reverendíssima ou vossa reverendíssima. 5. Emprego facultativo de minúscula nos nomes que designam domínios do saber e formas afins. Ex. Português ou português, Arte Medieval ou arte medieval, História da América ou história da América, Informática ou informática, Letras Clássicas e Vernáculas ou letras clássicas e vernáculas etc. 6. Emprego facultativo de maiúscula inicial em logradouros públicos, templos e edifícios. Ex. Rua do Ouvidor ou rua do Ouvidor, Edifício Copan ou edifício Copan, Túnel Rebouças ou túnel Rebouças, Bairro da Mooca ou bairro da Mooca etc.

Acentuação 1. Eliminação do sinal de diérese intitulado trema no –u seguido de g ou q e antes de –e ou –i. Ex: Linguiça, Aguentar, Frequente, Antiquíssimo, Enxague, Equestre etc. 2. Eliminação do acento agudo nos ditongos abertos –ei, -oi, -eu das palavras paroxítonas. Ex. Ideia, Heroico, Paranoico, Apoio etc. (As oxítonas mantêm-se com acento, ex: herói, céu, corrói, remói etc.) 3. Eliminação do acento agudo nas palavras paroxítonas com –i e –u tônicos precedidos de ditongo. Ex. Cauila, Feiura, Baiuca, Sauipe etc. (A acentuação mantém-se nas proparoxítonas – feiíssimo, maiúsculo – ou nas paroxítonas que não são precedidas de ditongo – saúde, cafeína, viúvo.) 4. Eliminação do acento agudo das palavras paroxítonas que possuam –u tônico precedido das letras g ou q, seguidas de –e ou –i. Ex. Averigue, Apazigue, Oblique, Redargui, Arguem etc. 5. Eliminação do acento circunflexo nos encontros vocálicos –oo. Ex. Voo, enjoo, perdoo, abençoo, soo, coroo etc. 6. Eliminação do acento circunflexo nos encontros vocálicos –ee. Ex. Creem, deem, leem, veem, descreem etc. 7. Eliminação dos acentos agudo e circunflexo nas seguintes palavras homógrafas (acento diferencial): Para (verbo/preposição), pela (verbo/substantivo/preposição), polo (substantivo/ preposição arcaica), pelo (verbo/substantivo/preposição), pero (substantivo/conjunção arcaica), pera (substantivos/preposição arcaica). 8. Manutenção do acento diferencial nas seguintes palavras. Pôde, Pôr, Têm (e todos os demais derivados do verbo Ter), Vêm (e todos os demais derivados do verbo vir). 9. Emprego facultativo dos acentos agudo e circunflexo nas seguintes palavras homógrafas: dêmos ou demos, fôrma ou forma, amámos p ou amamos. 10. Emprego facultativo da acentuação nos casos consagrados pelas duas ortografias oficiais. Ex. matinê ou matiné, purê ou puré, judô ou judo, metrô ou metro etc. 11. Emprego facultativo da acentuação nas formas conjugadas dos verbos terminados em –guar, -quar e –quir. Ex. averiguo ou averíguo, averígue ou averigue, enxáguo ou enxaguo, águo ou aguo, obliquo ou oblíquo, apazíguo ou apaziguo etc.

Hífen 1. Eliminação do hífen em palavras compostas cuja noção de composição, em certa medida, se perdeu. Ex. paraquedas, mandachuva, madressilva, parachoque, rodaviva, cabracega, ferrovelho, bateboca, tocafitas etc. 2. Eliminação do hífen em vocábulos derivados por prefixação, cujo prefixo terminar em vogal e o segundo elemento iniciar-se por consoante. Ex. contrarregra, extrarregular, ultrassonografia, neorrepublicano, protorrevolucionário, semiselvagem, suprarrenal, infrassom, suprassumo etc. 3. Eliminação do hífen em vocábulos derivados por prefixação, cuja vogal final do prefixo é diferente da vogal inicial do segundo elemento. Ex. extraescolar, autoaprendizado, contraindicado, autoestima, hidroelétrico etc. 4. Eliminação do hífen nas formas conjugadas do verbo haver seguido da preposição de. Ex. hei de, há de etc. (Já era assim aqui no Brasil.) 5. Manutenção do hífen em palavras compostas por justaposição cujos elementos constituem uma unidade semântica, mas mantêm uma tonicidade própria; e em compostos que designam espécies botânicas e zoológicas. Ex. ano-luz, arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, tenente-coronel, tio-avô, alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano, afro-asiático, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, segunda-feira, conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva, couve-flor, carta-bilhete, vitória-régia, cirurgião-dentista, abaixo-assinado, ave-maria, erva-doce, feijão-verde, formiga-branca, bem-te-vi. (Comparada com a regra 1, esta é uma das propostas mais polêmicas.) 6. Manutenção do hífen em vocábulos derivados por prefixação cujo segundo elemento iniciar-se por h. Ex. pré-história, semi-hospitalar, geo-história, sub-hepático, anti-higiênico, super-homem etc. 7. Manutenção do hífen em vocábulos derivados por prefixação cuja consoante final do prefixo é r e o segundo elemento também iniciar-se por r; ou com os prefixos circum-e pan- com o segundo elemento iniciado por vogal, m ou n; ou em qualquer condição para alguns prefixos (além-, ex-, sota-, soto-, vice-, vizo-, pós-, pré-, pró-, grã-, grão). Ex. hiper-reativo, inter-relacionado, super-resistente, super-requintado, circum-escolar, circum-murado, pan-mágico, pan-negritude, pan-americano, além-mar, ex-almirante, ex-primeiro-ministro, sota-piloto, soto-mestre, vice-presidente, vizo-rei, pós-graduação, pós-tônico, pré-escolar, pré-natal, pró-africano, pró-europeu, grã-duque, grã-fina, grão-cruz, grão-mestre. 8. Inclusão do hífen em vocábulos derivados por prefixação cujo prefixo terminar por vogal igual à vogal inicial do segundo elemento. Ex. anti-inflacionário, arqui-inimigo, auto-ônibus, pseudo-organizado, mega-ação, semi-interno etc.

Letras Mudas 1. Eliminação de consoantes mudas não pronunciadas. Ex. baptizar – batizar, adoptar – adotar, Projecto – projeto etc. 2. Emprego facultativo de consoantes mudas pronunciadas. Ex. Sector ou setor, Excepcional ou excecional, concepção ou conceção, peremptório ou perentório, aspecto ou aspeto, corrupto ou corruto, recepção ou receção, amígdala ou amídala, infeccioso ou infecioso, dicção ou dição, decepcionar ou dececionar, aritmética ou arimética etc.

Grafia de derivados 1. Uniformização dos sufixos –iano e –iense (em vez de –ano e –ense) em vocábulos derivados de palavras terminadas por –e(s). Ex. acriano, açoriano, quebequiense, zairiense etc. 2. Uniformização das terminações átonas –io e –ia (em vez de –eo e –ea) nos substantivos que constituem variações de outros substantivos terminados em vogal. Ex. hástia, réstia, véstia, béstia etc. 3. Variação da conjugação de verbos terminados em –iar, provenientes de substantivos terminados em –ia ou –io átonos. Ex. negocio ou negoceio, premio ou premeio, noticio ou noticeio, calunio ou caluneio, conferencio ou conferenceio, compendio ou compendeio, influencio ou influenceio, principio ou principeio, penitencio ou penitenceio, medeio ou medio, odeio ou odio etc. (Outra regra bem polêmica.)

Fonte: Silva, Maurício. O novo acordo ortográfico da língua portuguesa. São Paulo, Contexto, 2008.

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