Prêmio Fórum de Ciência e Cultura – resultado

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É com grande alegria que informo aqui os resultados do Prêmio Fórum de Ciência e Cultura em que um dos contemplados é a nossa amiga Diana de Hollanda. Esta famigerada integrante do coletivo riosemdiscurso galgou com destreza a estimada segunda colocação e seu respectivo prêmio com o blog não saber a morte. Em sendo o concurso de tema fixo e forma livre (e, por isso, leia-se desde de monografias a obras ficcionais), Diana aproveitou para explorar seu conceito de “blog como obra” e chegou a um resultado muito interessante e novo, plenamente merecedor da premiação. Parabéns a ela!

Abaixo a reportagem com os resulatdos e os demais premiados.

Sai o resultado do Prêmio Fórum de Ciência e Cultura
por Rafael Barcellos, Jornalista do FCC/UFRJ 

   Alexandre Screiner Ramos da Silva ou Joaquim Loureiro (seu psedônimo) é o vencedor do Prêmio Fórum de Ciência e Cultura. Ele obteve o primeiro lugar com a obra Auto-retrato. Já Diana de Hollanda foi classificada em segundo lugar e a terceira colocação ficou para Henrique Marques Samyn, pelo trabalho O escritor e o pianista.  leia mais

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Poesias de Espanha

Mesmo não sendo no Rio, vale a pena divulgar o lançamento da coleção “Poesias de Espanha – da origens à Guerra Civil”.

Abaixo, o convite e a resenha de divulgação:

 

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COLEÇÃO POESIAS DE ESPANHA

Os 70 anos do encerramento da Guerra Civil Espanhola, um dos episódios mais cruéis e de maior impacto do séc. XX, serão lembrados no dia 1º de abril de 2009. Para marcar a data, a editora Hedra lança, no dia 3 de abril na Casa das Rosas, a coleção Poesias de Espanha: das origens à Guerra Civil, uma antologia poética em quatro volumes que reúne as literaturas galega, espanhola, catalã e basca, todas elas profundamente marcadas pela Guerra Civil Espanhola.

Os volumes que serão lançados, intitulados Poesia galega, Poesia espanhola, Poesia catalã e Poesia basca, todos com o subtítulo “das origens à Guerra Civil”, reúnem uma seleção de poemas e autores representativos dos principais períodos históricos de cada literatura, desde suas origens como manifestação literária, a partir do séc. XII, até a Guerra Civil Espanhola, encerrada em 1º de abril de 1939.

O corte temporal, além de abarcar as origens da poesia de cada uma das línguas, destaca a importância da Guerra Civil Espanhola para as quatro literaturas, simultaneamente como elemento de ruptura e fator de convergência, na medida em que representa o desaparecimento de toda uma geração de escritores perdida na guerra ou no exílio.

Com organização e tradução de Fábio Aristimunho Vargas, a antologia conta ainda com um amplo aparato crítico: uma apresentação geral à coleção seguida dos prefácios específicos para cada língua, notas biobibliográficas dos autores e poemas, um quadro sinótico, fonética sintática e guia comparativo das ortografias portuguesa, galega, castelhana, catalã e basca.

Entre os autores reunidos figuram nomes tão diversos como Martim Codax, Rosalía de Castro, Manuel Antonio (Poesia galega), Gonzalo de Berceo, Garcilaso de la Vega, Federico García Lorca (Poesia espanhola), Ausiàs March, Jacint Verdaguer, Bartomeu Rosselló-Pòrcel (Poesia catalã), Bernat Etxepare, José María Iparraguirre, Lauaxeta (Poesia basca), entre vários outros, além de composições e cantigas de origem popular.

O livro dedicado à poesia catalã foi premiado pelo Institut Ramon Llull, entidade responsável pela projeção no exterior da língua e da cultura catalãs, com sede em Barcelona, com a concessão de apoio à tradução em 2009.

 

Fábio Aristimunho Vargas é integrante do “Coletivo Vacamarela” que organiza a Flap! em São Paulo. 

Cinco cidades

cidades

As cidades
e o desejo

A três dias de distância, caminhando em direção ao sul, encontra-se Anastácia, cidade banhada por canais concêntricos e sobrevoada por pipas. Eu deveria enumerar as mercadorias que aqui se compram a preços vantajosos: ágata ônix crisópraso e outras variedades de calcedônia; deveria louvar a carne do faisão dourado que aqui se cozinha na lenha seca da cerejeira e se salpica com muito orégano; falar das mulheres que vi tomar banho no tanque de um jardim e que às vezes convidam — diz-se — o viajante a despir-se com elas e persegui-las dentro da água. Mas com essas notícias não falaria da verdadeira essência da cidade: porque, enquanto a descrição de Anastácia desperta uma série de desejos que deverão ser reprimidos, quem se encontra uma manhã no centro de Anastácia será circundado por desejos que se despertam simultaneamente. A cidade aparece como um todo no qual nenhum desejo é despediçado e do qual você faz parte, e, uma vez que aqui se goza tudo o que não se goza em outro lugares, não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer. Anastácia, cidade enganosa, tem um poder, que às vezes se diz maligno e outras vezes benigno: se você trabalha oito horas por dia como minerador de ágatas ônix crisóprasos, a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo.

As cidades
e os olhos

Depois de marchar por sete dias através das matas, quem vai a Bauci não percebe que já chegou. As finas andas que se elevam do solo a grande distância uma da outra e que se perdem acima das nuvens sustenam a cidade. Sobe-se por escadas. Os habitantes raramente são vistos em terra: têm todo o necessário lá em cima e preferem não descer. Nenhuma parte da cidade toca o solo exceto as longas pernas de flamingo nas quais ela se apóia, e, nos dias luminosos, uma sombra diáfana e angulosa que se reflete na folhagem.

Há três hipóteses a respeito dos habitantes de Bauci: que odeiam a terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contato; que a amam da forma que era antes de existirem e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de examiná-la, folha por folha, pedra por pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a própria ausência.

As cidades
e os mortos

O que distingue Argia das outras cidades é que no lugar de ar existe terra. As ruas são completamente aterradas, os quartos são cheios de argila até o teto, sobre as escadas pousam outras escadas em negativo, sobre os telhados das casas premem camadas de terreno rochoso como céus enevoados. Não sabemos se os habitantes podem andar pela cidade alargando as galerias das minhocas e as fendas em que se insinuam raízes: a umidade abate os corpos e tira toda a sua força; convém permanecerem parados e deitados, de tão escuro.

De Argia, daqui de cima, não se vê nada; há quem diga: “Está lá embaixo” e é preciso acreditar; os lugares são desertos. À noite, encostando o ouvido no solo, às vezes se ouve uma porta que bate.

As cidades
e o céu

Quando se chega a Tecla, pouco se vê da cidade, escondida atrás dos tapumes, das defesas de pano, dos andaimes, das armaduras metálicas, das pontes de madeira suspensas por cabos ou apoiadas em cavaletes, das escadas de corda, dos fardos de juta. À pergunta: Por que a construção de Tecla prolonga-se por tanto tempo?, os habitantes, sem deixar de içar baldes, de baixar cabos de ferro, de mover longos pincéis para cima e para baixo, respondem:

– Para que não comece a destruição. – E, questionados se temem que após a retirada dos andaimes a cidade comece a desmoronar e a despedaçar-se, acrescentam rapidamente, sussurrando: – Não só a cidade.

Se, insatisfeiro com as respostas, alguém espia através dos cercados, vê guindastes que erguem outros guindastes que erguem outros guindastes, armações que revestem outras armações, travas que escoram outras traves.

– Qual é o sentido de tanta construção? – pergunta. – Qual é o objetivo de uma cidade em construção senão uma cidade? Onde está o plano que vocês seguem, o projeto?

– Mostraremos assim que terminar a jornada de trabalho; agora não podemos ser interrompidos – respondem.

O trabalho cessa ao pôr-do-sol. A noite cai sobre os canteiros de obras. É uma noite estrelada.

– Eis o projeto – dizem.

As cidades
e os símbolos

Quem viaja sem saber o que esperar da cidade que encontrará ao final do caminho, pergunta-se como será o palácio real, a caserna, o moinho, o teatro, o bazar. Em cada cidade do império, os edifícios são diferentes e dispostos de maneiras diversas: mas, assim que o estrangeiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar em meio às cúpulas de pagode e clarabóias e celeiros, seguindo o traçado de canais hortos depósitos de lixo, logo distingue quais são os palácios dos príncipes, quais são os templos dos grandes sacerdotes, a taberna, a prisão, a zona. Assim – dizem alguns – confirma-se a hipótese de que cada pessoa tem em mente uma cidade feita exclusivamente de diferenças, uma cidade sem diguras e sem forma, preenchida pelas cidades particulares.

Não é o que acontece em Zoé. Em todos os pontos da cidade, alternadamente, pode-se dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, consultar oráculos. Qualquer teto em forma de pirâmide pode abrigar tanto o lazareto dos leprosos quanto as termas das odaliscas. O viajante anda de um lado para o outro e enche-se de dúvidas: incapaz de distinguir os pontos da cidade, os pontos que ele conserva distintos na mente se confundem. Chega-se à seguinte conclusão: se a existência em todos os momentos é uma única, a cidade de Zoé é o lugar da existência indivisível. Mas então qual é o motivo da cidade? Qual é a linha que separa a parte de dentro da de fora, o estampido das rodas do uivo dos lobos?

Calvino, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo, Folha de São Paulo/O globo 2003.

Thot

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        Pois o deus da escritura é também, isso é evidente, o deus da morte. Não esqueçamos que, no Fedro, também se censurará à invenção do pharmákon o substituir o signo ofegante à fala viva, o pretender prescindir do pai (vivo e fonte de vida) do lógos, o não poder mais responder por si como uma escultura ou uma pintura inanimada etc. Em todos os ciclos da mitologia egípcia, Thot preside a organização da morte. O mestre da escritura, dos números e do cálculo não inscreve apenas o peso das almas mortas, ele teria, inicialmente, contado os dias da vida, enumerado a história. Sua aritmética abrange também os acontecimentos da biografia divina. Ele é “aquele que mede a duração da vida dos deuses (e) dos homens”. Ele se comporta como um chefe do protocolo funerário e encarrega-se, em particular, da limpeza do morto.
        Por vezes o morto ocupa o lugar do escriba. E no espaço dessa cena, o lugar do morto recai sobre Thot. Pode-se ler sobre as pirâmides a história celeste de um morto: “Aonde ele vai, pois?, indaga um grande touro que o ameaça com seu chifre” (outro nome de Thot, noturno representante de Ra, é, digamos de passagem, “o touro entre as estrelas”). “Ele vai ao céu, pleno de energia vital, para ver seu pai, para contemplar Ra, e a criatura medonha o deixa passar.” (Os livros dos mortos, dispostos no sarcófago junto ao cadáver, continham em particular fórmulas que deveriam lhe permitir “sair à luz do dia” e ver o sol. O morto deve ver o sol, a morte é a condição e até mesmo a experiência desse face a face. Pensemos no Fédon.) Deus o pai o acolhe em sua barca e “acontece até mesmo que ele destitua seu próprio escriba celeste e coloque o morto em seu lugar, de tal forma que este julga, é o árbitro e dá ordens a alguém que é maior que ele”. O morto também pode se identificar simplesmente a Thot, “ele se chama simplesmente um deus; ele é Thot, o mais forte dos deuses”.
        A oposição hierárquica entre o filho e o pai, o súdito e o rei, a morte e a vida, a escritura e a fala etc. completa seu sistema naturalmente com aquela entre a noite e o dia, o Ocidente e o Oriente, a lua e o sol. Thot, o “noturno representante de Ra, o touro entre as estrelas”, está voltando para o oeste. Ele é o deus da lua, quer se identifique a ela, quer a proteja.
        O sistema desses caracteres faz funcionar uma lógica original: a figura de Thot opõe-se ao seu outro (pai, sol, vida, fala, origem ou Oriente etc.), mas suprimindo-o. Ela se liga e se opõe repetindo-o ou tomando seu lugar. De um só golpe, ela toma forma, ela adquire a forma daquilo mesmo ao que ela resiste, ao mesmo tempo, e se substitui. Ela se opõe, desde então, a si mesma, passa em seu contrário, e esse deus-mensageiro é mesmo um deus da passagem absoluta entre os opostos. Se tivesse uma identidade – mas precisamente ele é o deus da não-identidade –, ele seria essa coincidentia oppositorum à qual recorremos novamente. Distinguindo-se de seu outro, Thot também o imita, torna-se seu signo e representante, obedece-lhe, conforma-se a ele, o substitui, quando preciso, por violência. Ele é, pois, o outro do pai, o pai e o movimento subversivo da substituição. O deus da escritura é portanto, de uma só vez, seu pai, seu filho e ele próprio. Ele não se deixa assinalar um lugar fixo no jogo das diferenças. Astucioso, inapreensível, mascarado, conspirador, farsante, como Hermes, não é nem um rei nem um valete; uma espécie de joker, isso sim, um significante disponível, uma carta neutra, dando jogo ao jogo.
        Esse deus da ressurreição interessa-se menos pela vida ou pela morte do que pela morte como repetição da vida e pela vida como repetição da morte, pelo acordar da vida e pelo recomeçar da morte. É o que significa o número do qual é também o inventor e o patrão. Thot repete tudo na adição do suplemento: suprindo o sol, ele é outro que o sol e o mesmo que ele; outro que o bem e o mesmo que ele etc. Tomando sempre o lugar que não é o seu, e que se pode chamar também o lugar do morto, ele não tem lugar nem nomes próprios. Sua propriedade é a impropriedade, a indeterminação flutuante que permite a substituição e o jogo. O jogo do qual é também o inventor; Platão mesmo o lembra. Deve-se-lhe o jogo de dados (kubeía) e o gamão (petteía) (274d). Ele seria o movimento mediador da dialética se também não o imitasse, impedindo-o com essa dublagem irônica, indefinidamente, de terminar em algum cumprimento final ou alguma reapropriação escatológica. Thot nunca está presente. Em nenhuma parte ele aparece em pessoa. Nenhum ser-aí lhe pertence propriamente.
        Todos os seus atos serão marcados por essa ambivalência instável. Esse deus do cálculo, da aritmética e da ciência racional comanda também as ciências ocultas, a astrologia, a alquimia. É o deus das fórmulas mágicas que acalmam o mar, narrativas secretas, textos ocultos: arquétipo de Hermes, deus do criptograma não menos que da grafia.
        Ciência e magia, passagem entre vida e morte, suplemento do mal e da falta: a medicina devia constituir o domínio privilegiado de Thot. Todos os seus poderes resumiam-se aí e, aí, achavam onde se empregar. O deus da escritura, que sabe pôr fim à vida, cura também os doentes. E mesmo os mortos. As estrelas de Horus sobre os Crocodilos contam como o rei dos deuses envia Thot para curar Harsiesis, picado por uma serpente na ausência de sua mãe.
        O deus da escritura é pois um deus da medicina. Da “medicina”: ao mesmo tempo ciência e droga oculta. Do remédio e do veneno. O deus da escritura é o deus do phármakon. E é a escritura como phármakon que ele apresenta ao rei no Fedro, com uma humildade inquietante como o desafio.

Derrida, Jacques. A Farmácia de Platão. São Paulo, Iluminuras, 2005.

Afrodite in verso

1

CONFISSÃO

meus sussurros
são derramados
em papel de carta.

quando a calma da tinta acabar
esqueça que te amo.

 
Esse poema exemplifica bem o lírico “Afrodite in verso” da carioca Paula Cajaty, lançado ano passado pela 7Letras. A autora, que mantém um interessantíssimo e bem atualizado site (paulacajaty.com) de poesia e outras variedades do mundo artístico, teve a orelha dessa sua estréia escrita pelo poeta Fabrício Carpinejar, onde a essência do livro foi muito bem captada:

“Na obra, há um efeito ‘Lolita’, uma mistura nervosa de adolescência e erotismo, da ansiedade do meu ‘querido diário’ e o sarcasmo da partilha de bens.”

O segredo

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Aqui também temos regras.
Este blog é como qualquer outro lugar do mundo.

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1. O flapeano Z tem X e Y dias para postar.

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Com isso não estou dizendo que somos obedientes. Fazemos o mínimo. O mínimo no caso nem é postar, mas não invadir o dia X e Y do coleguinha Z. (Considerando que não estejamos movidos por uma crise de identidade e que, portanto, e sem sombra de dúvidas, sejamos o coleguinha W.)

Os meus dias, até então: segunda e quarta/ segunda ou quarta/ nenhum dos dois. (“Nenhum dos dois” é nova modalidade; modalidade questionável; modalidade a ser discutida.) Significa: não devo – e “não devo” não é “não posso” – postar quinta-feira.

Com toda essa ladainha quero dizer que lamento não poder começar este post com “Hoje termina”, pois devo admitir que me agradam os números redondos. “Hoje” é número redondo enquanto “Amanhã” não. “Amanhã” é “Hoje” + 1. Sim, toda a ladainha para comentar uma idiossincrasia (ou quase somente para isso), mas é preciso começar, e que seja (será) sem números redondos.

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Amanhã termina o prazo da Petrobrás.

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2. O flapeano deve tratar do literário contemporâneo.

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(Formalmente não são essas as palavras, e não sei bem se há palavras, porque, diante de uma regra que exija “literário” e “contemporâneo”, cavamos reunião para horas e horas, e convenhamos que reunião, assim com esse nome, é algo bem chato. E o pior: à necessidade de reuniões ainda obedecemos.)

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Sou um pouco supersticiosa; acredito que falar entrei na corrida pelo patrocínio possa automaticamente limar as minhas chances de ser bem-sucedida. Haverá alguma maldita conjunção astrológica, algum Deus jocoso que me aponte o dedo e diga “Rá, você não soube guardar segredo, você merece perder!”.

Mas estou regida hoje, número redondo, pelo dever. (Pff.) (Pff?) E, se objetivamos tratar do “contemporâneo”, é meu dever tratar do que não é segredo para ninguém: todos (ok, para toda regra existe uma exceção: quase todos) os parceiros do campo literário – e não somente literário – se empenharam nos últimos dias para enviar os seus projetos à Petrobrás.

Considerando que a maior parte não será contemplada e que, entre os não contemplados, haverá os que guardaram segredo, a minha situação de peitar deuses (constelações e o diabo a quatro) está resolvida. Se eu não ganhar, foi pela audácia, pela blasfêmia, pela ousadia, etc. (só por isso, ok?); se eu ganhar, estarei me livrando de uma superstição (e provavelmente livrando aqueles que se preocupam obsessivamente em guardar segredos como esse – ó, estrelas, atentem para o ato filantrópico!).

Tendo em vista a contemporaneidade do Petrobrás Cultural – e depois de amanhã só retomemos esse tema em outubro, por favor –, andei caçando aqui os contemplados na edição passada. São ao todo 23 nomes, bem conhecidos, menos conhecidos. Não postarei trecho de cada livro lançado – ou ainda não lançado, o que exigiria contato com os autores, suas superstições e idiossincrasias –, mas estimularei a pesquisa particular de cada um de vocês:

PROGRAMA PETROBRAS CULTURAL – SELEÇÃO 2006 / 2007
PRODUÇÃO E DIFUSÃO – LITERATURA
CRIAÇÃO LITERÁRIA: FICÇÃO E POESIA

PROJETOS CONTEMPLADOS

AMOSTRAGEM COMPLEXA
Protocolo: 296
Proponente: Simone Silva Campos
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Livro de contos de uma autora que já tem dois romances publicados.

UM A MENOS
Protocolo: 704
Proponente: Heitor Ferraz Mello
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro de poemas que versam sobre o ambiente urbano, focalizando com particular interesse os elementos inquietantes da cidade.

HOTEL NOVO MUNDO
Protocolo: 1147
Proponente: Ivana De Arruda Leite
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Romance sobre a São Paulo contemporânea, enfatizando a vida cotidiana dos habitantes humildes do centro.

A FILHA DO ESCRITOR
Protocolo: 1397
Proponente: Gustavo Bernardo Galvão Krause
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Romance metaficcional, tematizando o universo literário de Machado de Assis por meio da história de uma protagonista que se vê filha do escritor e que está internada num manicômio.

UMA HISTÓRIA À MARGEM
Protocolo: 1542
Proponente: Ricardo De Carvalho Duarte – Chacal
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Narrativa ficcional de aspecto memorialístico que repassa a experiência da poesia marginal, do teatro experimental e da poesia falada a partir dos anos 70.

CORPO-A-CORPO COM O CONCRETO – ROMANCE
Protocolo: 1815
Proponente: Bruno Zeni
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Proposta de romance articulada a partir de duas histórias narradas em primeira pessoa, uma de um jornalista e outra de um morador de rua, ambas em São Paulo.

CASO OBLÍQUO
Protocolo: 1909
Proponente: Maria Beatriz de Almeida Magalhães
Estado do Proponente: MG
Apresentação: Romance que se dispõe a recriar o sentido e o horizonte histórico da fundação de Belo Horizonte, explicitando a passagem do rural agrário para o urbano industrial.

PEIXE MORTO
Protocolo: 2024
Proponente: Marcus Vinicius de Freitas
Estado do Proponente: MG
Apresentação: Híbrido de romance histórico com romance policial, o projeto recupera os debates sobre o evolucionismo darwinista, na paisagem atual de Belo Horizonte.

ROÇA BARROCA
Protocolo: 2052
Proponente: Josely Vianna Baptista
Estado do Proponente: PR
Apresentação: Livro de poesias que tematiza elementos da cultura indígena do oeste do Paraná.

ONDE NÃO HÁ JARDIM
Protocolo: 2066
Proponente: Ana Paula Sá e Souza Pacheco
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro de contos que tem como ambiente a cidade de São Paulo.

A FÁBRICA DO FEMININO
Protocolo: 2186
Proponente: Paula Glenadel
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Livro de poesia organizado em torno da noção do “feminno” na perspectiva do humano.

SOB O DUPLO INCÊNDIO
Protocolo: 2648
Proponente: Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo)
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Livro de poemas no qual o poeta retorna aos grandes núcleos temáticos dos seus trabalhos anteriores.

ALGUM LUGAR
Protocolo: 3373
Proponente: Paloma Vidal
Estado do Proponente: DF
Apresentação: Projeto de romance pautado no conflito entre esfera intima e convívio social.

MODELOS VIVOS
Protocolo: 3393
Proponente: Ricardo Aleixo
Estado do Proponente: MG
Apresentação: 60 poemas explorando aspectos plástico-visuais e sonoros da palavra.

TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS
Protocolo: 3472
Proponente: Rodrigo Antonio de Souza Leão
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Apresentado como uma espécie de delírio, mesclando nomes de remédios, visões literárias fantasmais e registros do cotidiano, o texto é um estudo de caso em forma de ficção.

“RUMINAÇÃO À BEIRA DO RIO PINHEIROS”
Protocolo: 3496
Proponente: Alberto Alexandre Martins
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Projeto de dialogo poético com Mario de Andrade com outras meditações.

PROJETO LITERÁRIO PRIMAVERA NOS OSSOS – ROMANCE
Protocolo: 3533
Proponente: Alessandra Leila Borges Gomes
Estado do Proponente: BA
Apresentação: Romance com linguagem experimental focada na representação da experiência de uma mulher estuprada.

RELÓGIO SEM SOL
Protocolo: 3676
Proponente: Carlos Adão Volpato (Cadão Volpato)
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro de ficção reunindo escritos sobre a passagem do tempo.

ALEIJÃO (LIVRO DE POEMAS)
Protocolo: 3714
Proponente: Eduardo Sterzi
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro de poemas voltados para a reflexão sobre os lugares de irrupção da violência.

“ESSA COISA BRILHANTE QUE É A CHUVA”
Protocolo: 3798
Proponente: Cintia Moscovich
Estado do Proponente: RS
Apresentação: livro de contos com temática voltada para a contingência do individuo no mundo.

A EXTINÇÃO DA INFÂNCIA
Protocolo: 3826
Proponente: João Carlos (Joca) Reiners Terron
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Romance que tematiza a perda do universo infantil, numa estrutura e numa linguagem impactante.

“PIER, TRÓPICO”, UM LIVRO DE POEMAS
Protocolo: 4196
Proponente: Sérgio Alcides
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro que reúne poemas em série e outros avulsos em torno de três imagens: “ossada”, “píer” e “trópico”.

“EU QUERO SER EU”
Protocolo: 4630
Proponente: Clara Averbuck
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Proposta de romance juvenil, tematizando a história de uma adolescente em choques com os valores conservadores.

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Agora, com licença, recolho-me para pedir perdão e acender uma vela. Boa sorte a todos. E, por via das dúvidas, guardem o segredo. 😉

Um poema de Alberto Pucheu

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ECOMETRIA DO SILÊNCIO

        Não fui ao túmulo do poeta morto, cravar a testa
no cimento duro. Não fui à casa do poeta morto, vestir
seus óculos, sentar à mesa de trabalho ou de jantar, ler
os livros envelhecidos na estante ou manuscritos em
caixas, arcas e malas. Não caminhei pela rua do poeta
morto, recitando seus versos de cor, trazendo
escombros junto a mim. O que pôde tocar, não toquei.
Nunca quis sua caneta em meu bolso, transpirando seu
suor em minhas páginas escassas. Não ansiei por
cartas de elogio, indicação a editores, artigo em jornal.
Deixei as poucas lembranças, como as fotografias em
comum, para o esquecimento. Quase não me lembro
do poeta morto. O que um dia esperei dele, descubro
que, de há muito, trago no corpo: a força de um
silêncio recolhido.
        Estou só. Como a madeira silenciosa deste
armário, como o fruto mais maduro que não tomba,
mas, à beira de tombar, está no instante. Estou só.
Com as letras da distância, com os nervos da lacuna.
A calada enfiada pelos pés, os pés estacionados com
o peso da calada. Cada um se deita na cama que
merece. O destino não muda, e o futuro me atormenta.
Estou só. Ninguém me peça o que eu não posso dar:
hospedagem, dinheiro, estas pequenas coisas que até
tenho. Que se lancem com uma pedra ao mar,
amarrada na cintura, ou por debaixo dos pneus de um
carro, ou em frente de bala calibrada. Mas ninguém
me peça o que eu não posso dar. Dou ao mundo
somente o que nem tenho, um naco de frases
carcomidas. Estou só.
        Aqui, neste quarto, sou o preço que o que
larguei para trás e o que nunca logrei me querem
cobrar. Passo a vida imerecidamente. Viver é para
aqueles que, apesar de tudo, permanecem tranqüilos.
Nunca tive filhos. Não pela miséria humana, pois, este
legado, como qualquer pessoa do tempo em que vivo,
não me importa transmitir. Mas por querer evitar que
o inoportuno atravessasse minhas horas, propagando
demandas, adiando a disponibilidade necessária para o
amanhã que jamais virá. Me basta o incômodo
involuntário e excessivo. Não peço desculpas a
ninguém, nem aos delicados, tenho mais o que fazer.
Sei que estou só e quero cumprir a solidão nos
afazeres cotidianos e na inquietude merecida por ter
vindo ao mundo. As perguntas que, por tanto tempo,
se fizeram em mim, extinguiram-se. Estou sentado
com os sentidos no corpo do pensamento, suspenso,
há uns três pés acima do solo que piso. Conquisto, a
cada dia, uma espécie de permanência, de confiança,
na perplexidade que o mundo oferece. E há dor.
         Não tenho motivos para acreditar em mim, em
qualquer qualidade que possa ter. Os acertos e erros
foram todos pequenos, como os de qualquer um na
vida. Até hoje, não me orgulho de nenhuma
relevância. Desfruto, mesmo, de certo prazer por não
ter contribuído com o que quer que fosse. E acaricio,
com a palma de minha vaidade, o descrédito que me
dou, flagrando no sucesso alheio a inautenticidade a
que muitos se permitem. Quantas cabeças fraudadas
se sujeitando a aplausos… quanto regozijo com a falsa
impressão de inteligência que querem causar…
quanto investimento para forjar a mesquinharia do prestígio.
Percebo, pelo caminho que passo, latidos e miados de
animais que teriam outros hábitos, bípedes
emplumados piando na tentativa de ser gente, clones
do fracasso inveterado de si mesmos. Todos,
náufragos de mãos dadas, clamando pelo sinal
salvador de uma bóia flutuante… ainda. Sigo melhor
sem companhia, cozinhando o brando e o rude nos
baços da caligem que me esconde, guiado pelo futuro
que não se sabe.
         Desprezo a frieza da perfeição, pela ausência do
risco, superado, pela necessidade do acerto e da
completude blindada. Abandonaria esta fala em
qualquer lugar, por desleixo ou cansaço, pouco
importa. O fato de ter sido acionada sem o menor
estampido, sem o menor alarde, sem alguém que a
escute, sem alguém que a aprove, sem alguém que a
reprove, sem alguém que mova o mínimo músculo,
surrado, prova ser minha, esta fala. Estou só. E só
encontro o movimento do que me cala: o amarelo do
peixe no aquário do shopping, a musculatura operária,
o cérebro no impacto do soco, a punção do trocarte e o
momento seguinte ao acidente consumado. Encontro…
Encontro a noite de óculos perdidos no fundo de um
lago. Encontro só o que me cala.
         Deixei os livros na calçada – que o caminhão de
lixo ou um vizinho desavisado, desconhecido, os
pegue; bons ou ruins, ótimos ou péssimos, nunca
foram nada para mim. Guardei três ou quatro por não
possuírem esteios em que pudesse me agarrar. Se na
vida não os tenho, não os terei nos livros.
Pelo menos, não sou um tolo completo. Se sou cego, é apenas de
uma vista. Se surdo, aprendi a escutar com o pouco do
olfato que sobrou. Se sou mudo, a fraqueza de
algumas palavras, à minha revelia, murmura, ou
assopra a tentativa de seu hálito afônico como no
instante mortal de um hospitalizado. Penso quando me
espanto com o transbordamento da ausência. Falo para
ninguém. Falo por falar. Já não me afaga ter algo a
dizer… Falo pela necessidade implausível de silenciar
as palavras com as próprias palavras. Tomo posição:
meço, com o eco do silêncio pronunciado, a distância
que separa de mim o arredor que blasona. Quanta
turbulência na milhagem intransponível entre ouvidos
alheios e minha boca, entre a boca alheia e meus
ouvidos, quanta incompatibilidade.
         Nunca me reconheci em nenhuma frase, estive
sempre perdido, e, hoje, só tenho essa perdição sem
qualquer esperança. Vivo a instabilidade das
propensões, submetido aos ditames do provisório.
Estar fora de tudo o que dizem, não ser alvo meritório
de ninguém, é minha maneira de estar dentro. Não
tenho escolha. Prefiro assim. Estou só.

(Ecometria do silêncio . Rio de Janeiro: Ed. Sette Letras, 1999, págs. 5-8)

Alberto Pucheu nasceu no Rio de Janeiro, em 1966. É escritor e professor de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participou da edição da FL@P!RJ 2007, na mesa A Literatura na Sala de Aula, junto a Érico Braga, Flávio Corrêa de Melo e Marcus Alexandre Motta.