Ensaios radioativos

confraria-capa1O poeta, editor (da Confraria do Vento) e ensaísta Márcio-andré lançou no final de 2008 seu mais novo livro: Ensaios radioativos. Oscilando entre artigos explicitamente líricos e uma crítica acurada, Márcio fez um livro não menos que belo. A revista eletrônica de literatura Cronópios publicou há pouco tempo uma interessante resenha da obra, escrita pelo também poeta e pensador Anderson Fonseca. Recomendo o link, além do livro, claro.

Márcio-andré participou intensamente da FL@P!RJ 2007, quando fez parte da primeira mesa ao lado dos poetas Bruno Cattoni, Paulo Ferraz, Sylvio Back e Toni Barreto. Além disso, seu grupo de poesia sonora Arranjos para assobio fez a apresentação de abertura para os debates do dia seguinte.

Um Rio chamado Machado

Segue uma indicação de literatura levada aos palcos.

Neste musical, 22 atores das Oficinas de Criação de Ernesto Piccolo e Ricardo Blat apresentam a teatralização de cinco contos de Machado de Assis, tendo como cenário um grande tabuleiro de xadrez.

 Até 18 de fevereiro.

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A literatura em perigo

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O renomado crítico literário Tzvetan Todorov surpreendeu ao lançar em 2007 “A literatura em perigo”, livro em que ataca a visão e a formação essencialmente estruturalista do ensino literário na França. A obra é agora lançada no Brasil pela editora Difel, com tradução de Caio Moreira.

Uma excelente reportagem de Miguel Conde (incluindo uma entrevista exclusiva com o autor) no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo deste sábado (24/01) traz à tona a polêmica levantada pelo autor. A discussão é também muito apropriada ao Brasil. Reproduzo aqui, portanto, um pequeno trecho da matéria, a título de levantar a reflexão, o debate talvez, e sugerir a leitura da obra.

 “Num resumo simplificado, o problema apontado por Todorov é que a pesquisa e o ensino de literatura nas escolas e universidades tratam cada vez mais da forma do texto – a que gênero ele pertence, como se estrutura, qual seu estilo – e cada vez menos do sentido, ou seja, daquilo que o autor diz sobre o mundo em que ele e o leitor vivem. Isso ocorre, Todorov argumenta, em parte devido à hegemonia de inúmeras teorias que puseram questão, nas últimas décadas, a concepção do texto literário como uma representação do mundo real. Por isso, críticos hoje dariam mais atenção aos elementos internos do texto do que à sua relação com a vida ao seu redor. Vista dessa maneira, a literatura se torna uma atividade autorreferente, cujo principal assunto é ela própria. ‘Uma concepção estreita da literatura’, escreve Todorov, ‘que a desliga do mundo no qual ela vive, impôs-se no ensino, na crítica e mesmo em muitos escritores. O leitor, por sua vez, procura nos livros o que possa dar sentido a existência. E é ele quem tem razão’”. Miguel Conde, para o jornal O Globo. 

 (A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov, Tradução de Caio Meira. Editora Difel) (A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov, Tradução de Caio Meira. Editora Dif

eXato acidente

Já conferiram o último do Tony? O livro fala por si, segue um trecho:

Dançando foi que eu percebi que as disputas podem ser diferentes e que, talvez, os cachorros sobrevivam. Imaginei o portão vazio e a sensação de vitória nos primeiros dias sem cachorro na vizinhança. Imaginei também o vazio das frases do dono do bar quando eu passasse lá sem me julgar melhor por ter um motivo para viver. Viver é umas vezes matar cachorros. Pensei que, tão logo eu matasse o primeiro, ficaria muito mais difícil matar um segundo. Os homens estariam de olho. E os cachorros poderiam mudar de humor nesse meio tempo, poderiam ficar quietos. Eu sairia de manhã com o sono satisfeito, andaria pela rua e nada, sem perspectivas. Seria preciso encontrar outra questão de vida e morte. A gente dança de noite e, no fim, o toureiro não mata o touro. Dormem os dois. Cheguei a achar que preciso dos cachorros para alimentar meu mau humor e minha vontade de dançar. Prazer compensatório. Se os cachorros ficassem em silêncio, eu dormiria e perderia o gosto pelo bailado? Talvez o seu Roberto continue trabalhando para ter com o que brigar.

(Monti, Tony. eXato acidente. São Paulo, Hedra, 2008 )

Leonardo Martinelli

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Homenagem aos dois meses de falecimento do poeta Leonardo Martinelli, completados no último sábado, dia 24.

Seguem dois poemas de seu livro Dedo no ventilador :

Museu Cotidiano

Esquecer para lembrar: centelha inglória
da renúncia, palavras turvas, membros inertes
– muletas de causa/efeito para maior
segurança dos instintos – o corpo, fábrica
de flertes, quer abrigo, pares e poros,
um pouco de atrito – este nó que de tão
cego não desata nem sacia (tarde de maio
ou joy forever?) – exilados da carne a
envenenar-se de espírito, fardos mutuamente
inúteis – agora deixa sangrar: uma
fina, milenar garoa, salpicando carbono
em flores fósseis (voltem sempre)

 
Pequena paisagem

Face em foco
sobre o rio – a mão
afaga o seixo
antes de atirá-lo
ao reflexo móvel
do último gesto

(Martinelli, Leonardo. Dedo no ventilador. Rio de Janeiro, Editora Bem te vi, 2005)

 

Apresentamos também um belo poema de Carlos Lima em sua homenagem:

Para um Cronópio em Transe

para Leonardo Martinelli

“Sem compreender que,
pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida,
o homem enganou o homem.”
Paulo Mendes Campos

 

Meu magnífico Cronópio
a vida transita pela máscara da tua face
machucada como um trapezista do caos
na essência todo esse mundo é uma indecência
um imenso emunctório de emoções traídas
só a fauna dos famas consegue cumprir os prazos
chegar às chagas desse solo sujo sem cicatrizes
Mesmo sem Horácio Oliveira, Maga, as teorias do túnel
o Perseguidor continua a sua irretocável viagem
enquanto nas úlceras do fim do mundo
uma traça morelliana como uma bela dama sem perdão
baila em volta do teu caixão de anjo rebelde
numa carícia morta sobre teu corpo não vencido
as unhas dessa paisagem infiel despejam sobre você
todo o fel da sua melancolia suburbana
mas nem a noite bêbada com sua atroz hipocrisia de medusa
que tateia os naufrágios nas pétalas do sonho
pode assassinar a Tarde de Maio do teu coração – já fábula de luz.

Carlos Lima
24/11/2008

Um poema de Pietroforte

de tanto esconder 50 gramas na calcinha
na confusão, me deixa alucinado
não sei se quando chupo sua boceta fico louco
ou se fico com tesão
quando fumo um baseado

(do livro “O retrato do artista enquanto foge”, São Paulo, Annablume, 2007)

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte nasceu em 1964, na cidade de São Paulo. Formado em Português e Lingüística, é mestre e doutor em Semiótica e Lingüística Geral pela FFLCH-USP, autor do romance Amsterdã SM (2007) e do livro de poesias O retrato do artista enquanto foge (2007), pela editora DIX; e dos livros Semiótica Visual – Os percursos do Olhar (1ª ed 2004; 2ª ed 2007) e Análise do Texto Visual – a Construção da imagem (2007), pela editora Contexto. Participou da FLAP! 2006, na Arena Livre, ao lado de Marcus Alexandre Motta e Virna Teixeira.

Poema do recém lançado Bendita Palavra, de Maria Rezende

MORRER PODIA SER SÓ UM POUQUINHO
podia ser um passeio
viagem pela noite que acaba num café

Morrer como uma aventura
uma montanha
andar o deserto a pé e depois voltar

Como dançar de olho fechado
se perder em outro corpo
como uísque bom, um sono inteiro
um prazer, um cheiro

Morrer podia até ser um castigo
porta fechada com prazo de fim
mas não esse buraco, esse abismo
seu riso pra sempre ausente
sua música soando e mim

(Rezende, Maria. Bendita Palavra. Rio de Janeiro, 7Letras, 2008 )

Maria Rezende participou da primeira edição da FLAP!RJ em 2006, onde dividiu a mesa mediada por Marcelino Freire com Claudia Roquette-Pinto, Fabio Aristimunho Vargas e Francisco Bosco.